quinta-feira, 3 de abril de 2014

LÁGRIMAS DE PORTUGAL

No domingo passado houve a procissão do Senhor dos Passos na Nazaré. Como em muitas outras localidades a imagem de Cristo vem ao encontro da da mãe e a procissão segue una até determinado local. Em Cascais, quando eu era miúdo, uma imagem saia da Igreja dos Navegantes e a outra da Capela de Nossa Senhora da Conceição, para se encontrarem frente à baía, em cortejo unido. Minha mãe, connosco e com as amigas, esperavamo-lo em locais diversos onde era suposto que Santa Verónica voltasse a cantar (a minha amiga Conceição tinha uma encantadora voz de soprano).
Ali na Nazaré a imagem do Senhor dos Passos sai da Capela da Pederneira e a da Senhora dos Anjos da capela com o seu nome, mais abaixo, rumando até ao alto, o sítio, a «abençoarem o mar». «Mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal», rimava Pessoa. As mesmas lágrimas que bordejam os olhos de muitos nazarenos nos dias que correm.
A lenda de Santa Verónica é muito glosada nestes cerimoniais. Ela ter-se-á apiedado de Cristo ensanguentado subindo ao Gólgota e deu-lhe o seu véu. Jesus terá limpado o rosto devolvendo-lhe o pano onde aparecia o seu rosto estampado. Um suposto original deste pano estará depositado em cofre forte na Igreja matriz de Turim, em Itália, estando visível para os visitantes uma reprodução. Tive oportunidade de o ver por excecional deferência de amigos e autoridades para este suposto «convidado ilustre». É exatamente a mesma estampagem que as crianças transportam nestes eventos cá entre nós.
Dia de festa na Nazaré e é ver as mulheres com as suas saias curtas (sete?) e meias garridas passearem em grupos. Felizmente hoje as vestes são de cores alegres e variegadas e não do negro uniforme, anterior à construção do Porto de Abrigo, quando os homens morriam ao chegarem à praia. Exatamente como nos mostra a obra prima de Leitão de Barros, o filme Maria do Mar, que foi musicada pelo nosso saudoso amigo Francisco Sassetti. 
Abril 2014
Henrique Pinto

PROTEGIDO POR ESCOLTA MILITAR

Sempre entrei nas mesquitas em hora de culto, depois do muezin, em vários países, sem que alguém me impedisse. A não ser uma vez em Istanbul, onde me permitiram observar as orações até dada altura em que, delicadamente, me pediram que saísse. Não será assim em todo o lado? Pois bem, mas tal não nos permite fazer generalizações erróneas. Tenho muitos amigos e conhecidos muçulmanos mundo fora com os quais tenho estreitas relações de amizade. E isso é algo de que me posso orgulhar.
Certo dia fiquei impossibilitado de visitar o Nausoleu Quaid – E-Azam, em Karachi, onde jaz o fundador do Paquistão, o advogado Muhamid Ali Jinach. No dia anterior, no Lahore, em pleno hotel Holiday Inn cinco estrelas, tinha devorado com deleite os dezassete pratinhos, cada um de especiarias mais apuradas que o anterior. A viagem de duas horas num moderno Airbus da PIA até Karachi, a antiga capital do Paquistão, foi um martírio, tais as cólicas decorrentes daquele momento de gula. E nessa noite rebentara uma bomba à porta do Hotel Hilton, com motins e mortos pelas ruas. Fiquei, pois, dentro do minibus, observando os turistas subindo ou descendo a enorme escadaria do monumento fúnebre. 
Mas fiquei guardado por um soldado, fortemente armado, alugado pelo hotel (é um hábito normal) ao quartel local.

Muitos dos meus colegas paquistaneses que vou encontrando na Europa ou na América, têm-se envolvido devotadamente, no combate à poliomielite (doença mortal hoje restringida àquele país asiático e a parte do Afeganistão fronteiriço bem como à Nigéria, em África). Exatamente por isso o presidente do Paquistão tem contribuído regularmente com financiamento para a causa reconhecendo, francamente, o empenho ali colocado pelos voluntários internacionais de Rotary e pelas Nações Unidas.
Abril 2014
Henrique Pinto

terça-feira, 1 de abril de 2014

NÃO SE ME DÁ QUE VINDIMEM!

Cada um é como é. Mas a crítica viperina normalmente esquece as diferenças porque a obstinação/má formação é cega. Dou menos valor agora às citações do que já dei. Talvez porque elas também tenham ajudado a ser o que hoje sou. Mas ao ler a frase «ser amigável, amoroso, autêntico, inocente sem causa, é suficiente para disparar muitos egos sobre si…», atribuída a Osho, um guru agora tão em voga, lembrei-me de ditos sábios de minha avó Margarida.
Eu não discuto estratégias nem dou conselhos a quem dirige organismos de que saí pelo meu pé. E até hoje foram muitos. Quando cantava Lopes-Graça num dos coros universitários apreciava muito a melodia de “As vindimas”. Um dos versos populares rezava assim: «não se me dá que vindimem vinhas que eu já vindimei». Por isso ninguém espere de mim opinião que não me tenha sido pedida sobre o rumo que entendeu seguir. A não ser que toquem no que mais me orgulha, o poder andar de cabeça erguida.
Pessoa amiga dizia recentemente num oráculo da minha maior estima qualquer coisa como isto: «eu não tenho tantas possibilidades de chegar ao primeiro-ministro como o Dr. Henrique Pinto». Claro que tem. Qualquer dirigente duma organização de vulto da sociedade civil tem de tê-la. Isso não acarreta abdicar de nenhum dos seus princípios. E na verdade, para levar a água ao moinho é preciso refugiarmo-nos temporariamente dalguma exposição pública menos abrangente para que possamos abrir todos os caminhos.
Em verdade, evocando esses ditos colhidos na infância, como por exemplo, «as pessoas sabedoras têm mais inimigos do que as que o não são», recomendo vivamente, hoje ninguém pode deixar de querer saber cada vez mais. Mesmo se as autoridades do país lhe chamarem tolo (a todos os níveis do mundo se discute hoje a renegociação das dívidas soberanas e vejam o acontecido a quem se manifestou nesse sentido cá no burgo), ou os que o rodeiam lhe deem cabo da reputação. A defesa de todos e de cada um estará cada vez mais no saber. 
É a mesma situação que alguém arvorar perante outrem qualidades morais, como loas ao rigor e à transparência da sua prática. Quer fazer passar a mensagem que há quem as não tenha. Pois claro que há! Mas então não se deixem dúvidas a pairar no ar. Sobretudo quando não se tem uma experiência prática tão blindada quanto isso. E na verdade esse é o grande vetor da linguagem na sociedade portuguesa
Abril 2014
Henrique Pinto

quarta-feira, 26 de março de 2014

O SOCIAL, A RESPIRAÇÂO E A ALIMENTAÇÃO

O corpo dum indivíduo, tanto quanto (por comparação) o usual na maioria das estruturas sociais, tem órgãos insubstituíveis para que possa existir como entidade viva, desde logo o coração, parte do fígado como do cérebro e dos rins. Todavia, laborem esses órgãos bem ou mal, há duas funções fisiológicas dependentes do próprio indivíduo (em regra) a determinarem, tanto como o ambiente, o que cada um vai ter como existência. São elas a respiração e a alimentação.
Miguel Sousa Tavares discorre na sua última crónica no Expresso, uma das suas melhores de sempre, sobre um ângulo de olhar singular. Não que tudo seja original nele, porquanto se repete, e ainda bem. Não que eu próprio não pregue parte daquele sermão há muitas luas. É um texto importante por fazer saltar à evidência, não apenas a longevidade dos nossos problemas sociais – aquela patética viragem com D. Manuel I ou D. João II é determinante e manteve-se até agora -, mas sobretudo porque não toma por maus apenas quem manda e por bons em exclusivo os mandados. Admitindo que a qualidade moral dum povo (entidade mutável), é a variável mais interveniente. Somos o que nos condicionaram a ser mas somos também no que fazemos e pensamos.
E se a respiração nos pode facilitar o passo como o sono, a concentração intelectual e a tranquilidade de espírito, os mecanismos diretamente ligados àquilo que comemos, desde a motilidade e o transporte até à digestão, secreção e absorção, com um cortejo infindo de enzimas e coenzimas, hormonas, proteínas e vitaminas transportadoras, receptores, etc., conferem-nos saúde e doença, esta muito variada e de grau diverso. Passa-se o mesmo com o social.
Há países que há 120 anos tinham fraquíssima riqueza (vejam-se os filmes de Bergman, por exemplo, a ilustrarem essa época) e já estavam no grau zero de analfabetismo. São países onde as instituições são merecedoras do maior respeito (e não me refiro a facciosismos religiosos ou desportivos) e onde se privilegia a prática privada. Mesmo que eu nada tenha contra a prática pública. Todavia, num exame que fiz recentemente no estrangeiro um dos arguentes, holandês, apesar de ter a obrigação de ter estudado bem o currículo, perguntou-me se tinha trabalhado sempre para o setor público. Afinal, tudo isto terá ver com a maneira como somos no exercício da cidadania, na forma como, em termos sociais, respiramos e comemos. 
Março 2014
Henrique Pinto



segunda-feira, 17 de março de 2014

DAR A MÃO

Esta era uma altura onde eu ainda não descurava o porvir dum certo abrandamento das tenções no mundo. A terceira via poderia conter um certo lastro de oportunidades conciliatórias entre a paz e a economia. A influência das grandes organizações de serviços parecia ganhar asas para suster algum do apetite dos falcões e superar a inépcia dos inúteis.
próprio Jonhatan Majiagbé escolhera para seu lema «Lend a Hand». Eu escrevera há pouco O Século do Bem Estar, uns tempos antes do 11 de Setembro. Parte da década foi efetivamente marcada pelo empolamento agressivo da então única grande potência mundial. Nos anos seguintes arrastou-se no crash da desregulamentação económica, no aparente triunfo neoliberal com o endividamento das dívidas soberanas, o empobrecimento das classes médias e a pauperização das menos bafejadas pela sorte. 
Foi nesse ínterim que escrevi Até o Diabo Tem as Malas Feitas, uma asserção premonitória na aparência a encobrir a esperança. Hoje, quando se esboroa a mais sólida união da história, a EU, e o lobo das estepes se sente de jure o novo líder único do mundo, voltam os nacionalismos exacerbados e as tendências imperiais, mesmo entre países fundadores da União. 

Anthony Giddens, o homem da globalização e verdadeiro autor da terceira via, manifestou no início desta atual fase do capitalismo global a esperança num novo ciclo de rejuvenescimento da democracia social. 
Sem razões palpáveis para o acreditarmos hoje, plenamente, temos forçosamente de pensar que nem todos os jovens de hoje queiram enriquecer até aos trinta, nem todos os homens inteligentes e democratas da política serão comprados pelo grupo Goldman Sachs e nem todas as aflições nos levarão a conduzir motoboys da pizza a presidentes.
Março 2014
Henrique Pinto

quarta-feira, 12 de março de 2014

A COR DAS CORES

A procura sistemática da verdade mesmo se imperfeita e o libelo sobre a imperfeição de causas expressas sem aspirar a derradeira perfeição (e isto é tudo menos o que norteia os nossos destinos coletivos, bem mais térreo), são caminho menos árduo que o percorrido por Van Gogh, com os seus meios exíguos, na procura da melhor cor, o graal da cor.

De certo modo Renoir, Degas, Gauguin e tantos outros até Nadir Afonso, Sousa Cardozo, Skapinakis ou Paula Rego fizeram o mesmo mesmo se com menos intensidade.
Veneramo-lo hoje pelo exultante resultado da sua obsessão artística, prodigiosa, sem deixarmos de tolerar a arrogância e a inverdade dos que se creem ungidos para nos guiar, a banalidade.
Março 2014
Henrique Pinto

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segunda-feira, 10 de março de 2014

TUDO SE FINA


Todo o organismo vivo se deteriora até se finar. É natural que nenhum país tivesse logrado o pleno na sustentação do seu património edificado. Mesmo assim a pobreza crónica de Portugal – nunca aproveitou por inteiro os períodos em que teve maior ventura – contrasta com o seu riquíssimo espólio artístico, conservado ou não.
O Mosteiro Cisterciense de Nossa Senhora de Seiça, na freguesia de Paião, é a ruína histórica mais abandonada de todos os grandes edifícios históricos deste país. Imagine-se que até já terá sido fábrica, armazém e pecuária.
Também quando a vida obriga a dobrar o corpo os portugueses sempre encontraram uma saída, fosse pela emigração ou pela economia paralela. E assim os homens lançam-se a apanhar a lampreia em pleno Mondego quando ela sobe o rio a caminho da desova. De fato que terão de fazer? 
Num momento de difícil solvência os funcionários do Estado e os reformados são o alvo escolhido para cobrar rendimentos enquanto a máquina pública emprenha de novos assessores de cueiros com bolsos de fortuna. Oferecem-se automóveis a quem validar as faturas com o seu número fiscal num ridículo indizível. E as pessoas pagaram para colocar o país no rumo liberal, depois foram esmifradas para suportar a incompetência dos fautores deste disparate livresco e livrar a banca do risco sistémico de não fazerem tanto dinheiro. E agora já nem sabem para o que pagam. 
É assim a várzea do Mondego, o povo à espera que a água se evapore nas salinas, tendo fé que o arroz sobressaia da água, esperando que o mal e seus mandantes nem sempre dure. 
A política deveria renovar-se como os campos. O país não pode ser a ruína abandonada.
Março 2014
Henrique Pinto