domingo, 25 de dezembro de 2011

ANJOS E DEMÓNIOS PELO NATAL

A Natividade Mística, de Botticelli – pintor florentino que executou este quadro por volta de 1500, no Renascimento em ascensão – e que tive ensejo de ver por mera circunstância na National Gallery, é uma das mais misteriosas evocações pictóricas do Natal. Despojado de adereços de simbolismo material mostra os anjos conversando com os humanos e os demónios fugindo empalados nos objectos do seu poder deletério.
Embora apocalíptico e considerado profético, a obra em questão não é propriamente uma profecia legível nos dias de hoje, em que tudo se passa exactamente ao contrário quanto a anjos e demónios, e este Natal se nos afigura o primeiro estádio para uma árdua caminhada. A não ser que o primeiro-ministro (que pessoalmente muito considero) descreia de tudo, as pessoas de bom senso não lhe levariam a mal se mostrasse algum optimismo (ninguém se sustenta em seu juízo sob o cutelo da desgraça).
No dia em que os norte americanos entraram em Bagdad os trabalhadores e voluntários de agências internacionais como as Nações Unidas, assumindo as recomendações para o êxodo suscitado por mais um episódio da guerra civil, corriam pelas ruelas de Kano pulando por cima dos cadáveres aos centos, passaporte azul bem erguido, rumo aos transportes para Abuja e à fuga desesperada da Nigéria. Nenhum noticiário internacional se referiu então ao evento!
Pois Abuja, a nova capital nigeriana, foi hoje mesmo cenário de horror, da matança de cristãos em nome de Deus. Podiam ser outros crentes que o problema em nada mudava. O radicalismo terrorista de base religiosa matou também em Belém, na Cisjordânia, cidade mítica.
De pouco vale, a meu ver, repetir à exaustão, que não temos líderes europeus (ou mesmo mundiais), quando os cidadãos supostamente mais esclarecidos se digladiam para eleger estes mesmos líderes. Quase sorvem a baba da mentira e do descrédito feitas promessas. O declínio da Europa começou muito antes de Merkel mandar e da falência americana do Lheman Brothers, que o potenciou, mas foi fortemente influenciado pelos Nobeis de Bush e pela terceira via neoliberal de Tony Blair.
Mas é ainda fruto do equilíbrio mundial suscitado pela ascensão financeira da Ásia em virtude da globalização. Fenómeno este que, não sendo um mal em si, porque inevitável, trouxe o pós-modernismo comportamental e cultural, banalizador de costumes e de valores há muito instituídos, que induz visões mais individuais e incompletas do todo. Como o deve ao chauvinismo político-religioso que conduziu, por exemplo, à exclusão europeia da Turquia. E, de certo modo, à tolerância hipócrita com que ditadores como os destituídos pelos ventos do levante ou outros tão sinistros como Obasanjo da Nigéria, têm sido tratados e apaparicados em nome do petróleo.
Certa vez, negociando em nome da cultura com um académico «dos que estão sempre por cima», por, na sua ausência de princípios que não os dos interesses próprios, construírem uma imagem de imprescindíveis, e chamando-lhe à atenção para um aspecto institucional menos simpático, ripostou-me furibundo: «começa mal o seu pedido se vem para aqui criticar»! Leonel Jospin, quando interpelado por Guterres, também lhe respondeu: Ó António, olha que se não fossemos nós, vocês…». É aqui que a perene lucidez de Mário Soares se impõe. O eixo franco-alemão (mais alemão que franco) precisa que os supostos pedintes lhe batam o pé. Porque se excluirmos a eterna síndroma de ilhéu, personalizado agora por David Cameron, esses países credores estão umbilicalmente dependentes dos «pedintes».
As obras tardias de Botticelli deixam antever a influência da pregação de Savonarola, de agitação visionária. E nesse sentido ele persegue, como todos os que aspiram a melhorar o mundo, a sua utopia. Nos dias de hoje a utopia estará, seguramente, na mudança do paradigma económico e social tão decantado. E essa, mesmo que ressurjam todos aqueles demónios da Natividade Mística, não se faz na miséria franciscana material e culturalmente. Os devotos de Milton Friedman que tenham, por uma vez, consciência disso!
Henrique Pinto
Dezembro 2011
FOTOS: Botticelli em A Natividade Mística e em A Primavera

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