segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O ASSALTO AO BISPO


Falar de assalto ao bispo bem poderia ser a referência a disputado jogo de xadrez. Mas não, trata-se duma pequena história íntima que me contou D. Serafim, bispo emérito de Leiria/Fátima. E que, estou certo, ele me relevará a falta de contá-la aqui. Finda uma audiência com o Santo Padre saía ele do Vaticano quando um assaltante jovem o abordou ao estilo «a bolsa ou a vida». O bom conversador tentou em vão convencer o larápio. «Então não vês aqueles monsignori a entrarem nos mercedes e eu aqui a pé...». Frustrados vários argumentos mostrou-lhe a batina gasta e passajada, dizendo: «Estes botões tão mal cozidos fui eu que os pus». E o rapaz condoeu-se dele...
Conheci D. Serafim estava ele ainda no Colégio Português em Roma. É uma personalidade singular. Foi muito popular entre os seus diocesanos, com uma leitura pouco política do seu exercício. Talvez por isso não tenha ganho a unanimidade na conferência episcopal. Lembro-me do caso da TV Canção Nova, ou até de quando sugeriu que não se tocasse com os lábios no pé do menino Jesus, pelo Natal, dado o risco óbvio de contrair doenças transmissíveis, designadamente a tuberculose. Mesmo ao receber em Fátima o Dalai Lama. E logo os seus pares vieram a terreiro contrariar propósitos tão pouco ortodoxos.
Foi este homem sábio e tranquilo que me proporcionou encontrar-me com João Paulo II. Recordo a apreensão que me tocou ao perceber o tremor de mãos quando o mundo ignorou ainda por muito tempo a doença que já então o consumia.
Mingua o campo católico no país e boa parte dos padres jovens tem um discurso hiperbólico, fechado, imperceptível. Alguns bispos, pelo menos em sequência da entrevista translúcida de Bento XVI à saída da República dos Camarões, tomaram posição em favor do preservativo. Também a conferência episcopal deu grande abertura aos párocos para encararem a presumível maior capacidade de expansão da gripe A, com medidas avulsas semelhantes ou mais radicais que as propugnadas com igual fundamento científico por D. Serafim.
O diálogo entre ciência e igreja não é de ontem. É de esperar, a prazo, atenção diferente por parte da igreja a grandes estrangulamentos do mundo, só factível mediante alterações institucionais a resultarem do conhecimento mais laico.

Hpinto
Agosto 09
Adaptado de Até o Diabo Tem as Malas Feitas, edição Minerva Coimbra

O NOSSO MUNDO DE ROTARY (1)


O homem sonha e conversa. As ideias fazem-se procedimentos. Institucionalizam-se. E, com passo sobre passo, chegámos à conquista da Convenção de 2013.
Apesar de ser o segundo país europeu onde rotary international se estabeleceu o rotarismo português é frágil, e, em termos internacionais, tem vivido a espaços, mais ou menos intervalados, do fulgor e do empenho de alguns dos nossos Rotários.
A intervenção de Salazar Leite, mais ainda do que a de Ernesto Bastos, foi notável. Nomeadamente através do reflexo que veio a ter na acção de personalidades como Imbassahy de Mello e Paulo Viriato Costa, entre outras, grandes amigos de Portugal.
O período áureo das CIPs, nomeadamente com a França e o Brasil, foi igualmente muito promissor. A falta de Projectos consistentes fragilizou este importantíssimo instrumento.
O lançamento da campanha da pólio, o papel de Marcelino Chaves e os seus resultados, que alcandorou o país a maior contribuinte per capita e levou a director este nosso companheiro – indiscutivelmente uma das pessoas mais conhecidas e estimadas no mundo, em Rotary – deixou marca indelével,
A nova abertura ao mundo dos últimos sete anos, com a participação em Campanhas da Pólio, o convite a personalidades estrangeiras para participarem em actividades distritais, desde Örsçelik Balkan (nosso último director) a Safack Alpay, Gerson Bersanette, António Hallage, Linda Muller, Flávio Mendlovitz, Alceu Vezozzo, Júlio Sorjúz, Luís Coelho, Alfredo Pretoni ou Norbert Turco, o aumento substantivo das contribuições para a Rotary Foundation, as propostas de reconhecimento internacional a personalidades Rotárias portuguesas e o consequente conhecimento da nossa praxis, a participação de um conjunto de governadores em todas as convenções e institutos rotários, de zonas diferentes do mundo, serviços internacionais activos com a plêiade de contactos que tal acarreta, o interesse manifestado em organizar um Instituto Rotário e uma Convenção Internacional – e já estão ambos aí -, suscitou inevitavelmente um recentramento da atenção no trabalho dos clubes e distritos portugueses e o convite a diferentes pessoas para coordenadores de zona, training leaders ou conselheiros especiais, a participação muito regular em conferências específicas de alto nível, a escolha de dois e três companheiros por distrito e por ano para representarem os presidentes de RI, etc.
É óbvio que algo mudou na forma e na substância.

Hpinto
Agosto o9

O NOSSO MUNDO DE ROTARY (2)


Eu e o Frederico Nascimento demos o toque para a corrida. Ajudei outros companheiros a ganharem a Convenção de 2013. O facto de Portugal a ter ganho deve fazer-nos pensar que o nosso rotarismo e o seu papel internacional têm forçosamente de mudar para melhor. Há que quebrar com a visibilidade apenas a espaços (visibilidade como sinal de trabalho intenso e ajustado à missão) e trabalhar pela continuidade e cooperação, em crescendo.
Em primeiro lugar, os governadores têm de apostar na formação de quadros, que não só os presidentes de clube, adaptando os modelos de Anaheim/San Diego, como um investimento de curto e longo prazos. A insistência nos actuais modelos, que têm ainda por cima vindo a encurtar em duração, ou em seminários avulsos e abertos a toda (?) a gente, não nos leva só por si a lugar nenhum. Para toda a gente temos os clubes, o seminário da Rotary Foundation e a conferência distrital, no mínimo.
Depois, é notório o afastamento que existe entre a missão de rotary e a prática do nosso rotarismo. Este desfasamento é visível não só no baixo índice de companheirismo, como na ignorância, no princípio da internacionalidade, na fraca diversidade dos sócios, nos projectos de serviço que não existem, na acentuada fulanização, na falta de visão dinâmica como a que decorre do impasse do terceiro distrito, a localização de influências, na descontinuidade, na política de quadro social, etc.
É óbvia a necessidade de recentrar a praxis do rotary português em torno do plano estratégico, das ênfases/objectivos, do internacionalismo da nossa estrutura de solidariedade e de relacionamento externo.
Há que ver porque razão a nossa estrutura de plano de liderança distrital não é inteiramente assumida e conseguida. Situando-se parte substantiva das insuficiências de rotary entre nós na liderança e gestão débeis nos clubes (em geral, obviamente, e não em particular), começa a não ter justificação o atraso na implementação do plano de liderança de clube, que tão bons resultados tem logrado mundo fora.
O facto de termos ganho a Convenção de 2013 deve contribuir para o reforço da ideia de rotary international em Portugal e a consequente complementaridade dos dois distritos (o que não inviabiliza qualquer competitividade saudável).

Hpinto
Setembro 09

ÉTICA E NEGÓCIOS


Uma instituição empresarial portuguesa convidou Horácio Roque a palestrar sobre Ética e Negócios. Estava-se no topo do abalo financeiro nos EUA, vivíssima a trapalhada dos fundos tóxicos, pouco antes de ser conhecida a fraude Madoff, A resposta célere gelou as meninges a quem convidou o comendador, «não é a altura certa!».
Apareceu depois o fugaz incriminar de complicações fiscais. Surge agora a notícia meio apatetada de o governo angolano reivindicar o pagamento em dívida de avultadas quantias, supostamente enviadas por intermediário para depósito no Banco do empresário Roque.
A esposa do banqueiro, universitária distinta, foi deputada da UNITA. Desde quando a confiança política em Angola se restabeleceu a este ponto? A existirem como é possível fazer este tipo de operações bancárias legalmente ?

Hpinto
Agosto 09

FOTO: Comendador Horácio Roque

CONFLITO, TOLERÂNCIA E NATUREZA


Sua Alteza Real a Princesa Victória da Suécia abriu solenemente o encontro na Ilha de Djugarden, bem perto do Nordiska Museet na cosmopolita Estocolmo. Durante todo um dia discutiu e confraternizou com os membros do conclave. O tema complexo da paz foi abordado pelo ângulo da tolerância, tanto no que ao cidadão comum respeita, mas também – com alguma inovação, ruptura epistemológica com a banalidade usualmente merecedora do assunto –, na atenção e cuidados à natureza.
Nas ruas duma cidade e dum país onde a globalização trouxe afinal uma carga não despicienda de puritanismo, os shorts e T-shirts como ornato dos homens e a calça branca semitransparente acrescida do top, umbigo e pequena margem da cueca à vela, moda que galvanizou as mulheres de todo o mundo e de todas as idades, impunham-se com olímpica indiferença aos 19 graus Celsius do ambiente. Exactamente quando a Europa do sul era um braseiro dantesco e as televisões do mundo mostravam um Portugal rural envelhecido e descuidado.
Sobre a mesa estava também o avaliar da eficácia dos mestrados na área da paz e da resolução de conflitos, colaboração de sete das mais importantes universidades do mundo – usufrui da oportunidade de suscitar o interesse da universidade católica portuguesa neste processo – e o aval das Nações Unidas. Kofi Annan, que então passava férias ali ao lado com a sua esposa escandinava, não se fez rogado a elogiar esta prática Garantiu tudo fazer para por tão elevado capital de conhecimento e experiência jovem ao serviço da ONU.
Halga Bragadóttir, bolseira na universidade de Bradford, Inglaterra, um ídolo mediático da juventude da sua Islândia natal por via da experiência dos estágios em muitas zonas de pequenos e grandes conflitos, designadamente Moçambique, Serra Leoa e Ceilão, empolgou os delegados. A ênfase do seu discurso era forte. O conjurar dos conflitos envolve por excelência a transformação do homem bélico em homem político, a metamorfose do homem que apenas lobriga soluções na ponta das espingardas e nas pedras da intifada, naquele outro homem a aceitar discutir, a cedência, as regras da democracia, processo lento, apelo ao potenciar da cooperação e à ponderação de muito suposto responsável.
Este mesmo horror ao conflito, pai de todas as misérias, a mais grave das doenças do mundo, vi-o há anos em Angola - nos domínios do MPLA e da UNITA - e um pouco por toda a África, enquanto observador internacional, quase sempre mal dirimido.

Hpinto
Agosto 09

FOTO: Princesa Victória, da Suécia

POVO DE SANGUE QUENTE


O pequeno avião da Air North planava sobre a terra enrugada de Timor Leste, montanhas sobre montanhas de verde luxuriante tisnadas, barracas sobre barracas a marcarem a aresta superior das elevadas formações geológicas. Reunidas compulsivamente pelo ocupante indonésio na margem do caminho que bordeja o território, as populações debandaram a um tempo, forçadas pelas casas feitas tocha às mãos das milícias integracionistas mas também pela reserva de saudável rebeldia, e ergueram os refúgios da sua intimidade lá tão perto do céu.
Entre este povo de sangue quente e dado a extremos, vogando da ternura e do penhor à raiva do quão difícil é esquecer, tive a maior gratificação duma vida quando ali chefiei a delegação duma entidade financiadora do apoio à obra social da diocese de Baucau. Inauguraram-se com a maior solenidade as casas tradicionais reconstruídas – de certo modo são os tótemes, sinais duma identidade e personalidade colectiva recuperadas –, em Luerai e Foemma, duas aldeias que também conheceram a água potável, e ainda o maior centro de formação profissional do território.
Soprou-me alguém bem colocado que nem Sampaio nem Guterres tiveram recepção e reconhecimento de igual fervor.

Hpinto
Agosto 09

FOTO: Ximenes Belo

DO PRETO AO BRANCO


Ângelo Correia é self made man astuto, capaz, previdente. Ao deixar de ser ministro de Cavaco – um tanto molestado com a chamada «revolução dos pregos» – só volta à política aqui e ali. Parece fazê-lo por diletantismo, liberto de peias, mesmo na situação de comentador na TV. Diz-se por mofa «saber mais que o Nuno Rogeiro». A Luís Filipe Menezes lançou-o inteligentemente e logo dele se afastou quando o rio do desacerto engrossou o caudal. Distanciou-se da linha oficial do partido na alvorada das famosas listas para o parlamento. «Do preto ao branco está lá tudo menos o laranja», de pronto ironizou, pessoa humorada como é.
Acima de tudo é um homem de negócios bem sucedido, agora também na área do ambiente. Não deixa por atirar farpa de veneno ungida. Em resposta a «existe a ideia, mesmo no estrangeiro, de nos últimos anos se ter criado em Portugal um ambiente favorável ao desenvolvimento de projectos nas áreas de ambiente e energia…», do Expresso Economia, completa num ápice, injusto sábio, com graça, «ambiente favorável sim, sobretudo na eólica (…)».
Quem anda atento à herança filosófica do «primeiro» de Ângelo Correia, à altura «forças de bloqueio», hoje sibilinos artefactos de script, não deixará de com ele fazer coro em «o maior inimigo de Portugal é o próprio país», como diz na mesma entrevista.

HpintoAgosto 09

FOTO: Ângelo Correia, empresário, antigo ministro

UM FANÁTICO DE PORTUGAL


Há oportunidades na vida que são um enorme privilégio. Nada que respeite à usura agridoce dos bens palpáveis, às mordomias de qualquer posição das raramente conseguidas a pulso ou aos prazeres libidinosos do sexo ou do poder.
Existem experiências singulares. Às vezes até nem se contam a ninguém não vá correr-se o risco da futilidade gabarola. Dizia pessoa de bem com um indizível ar de chacota, outro dia a colega tinha ido em férias ao Egipto mas pusera a correr tratar-se de viagem de serviço. Perguntavam-se os companheiros: que serviço!? E riam-se perdidamente... Certa ervanária, há perto de trinta anos, fez extracção da vesícula biliar no vetusto Hospital D. Manuel de Aguiar não sem antes deixar um escrito na porta da loja atestando frequentar na mesma altura um curso nos EUA.
Nos últimos anos trabalhei nos cinco continentes, voei o equivalente a sete voltas ao mundo, tomei contacto com pessoas maravilhosas de quase todos os países. Falar de experiência e privilégio é curto, mais parece bênção divina! Dá um grau de auto confiança apreciável, distanciamento crítico profundo. A maledicência e o escasso rigor nacionais contrastam com a admiração que Portugal suscita por todo o lado. O país deu o maior salto sociológico da história contemporânea nos últimos trinta anos. O que não atenua a hipótese duma difícil melhoria da qualidade de vida no devir mais chegado. Mas o fenómeno cultural em geral e particularmente a cultura da excelência, indispensável a um gregarismo com mais atributos de bem estar e vistosos níveis de tolerância, tanto para com os semelhantes como relativamente à natureza, cavam o maior fosso civilizacional da vida colectiva portuguesa. Só raramente os economistas têm esta noção de cultura.
Cabia-me discursar a seguir a Rui Rio e apanhei-lhe a deixa. Angustiado com o zurzir de costas que atribuía aos «intelectualóides» do Porto confessou-se um entusiasta de cidades como a capital austríaca. Disse-lhe por brincadeira, «meu caro presidente, os intelectuais vão ficar radiantes consigo depois desta revelação, o orçamento de Viena para a cultura é superior ao do nosso ministério do ramo».
Alguma mesquinhez bem apessoada, por vezes de mistura com a avidez política ou de influência, e um pouco ao jeito do radicalismo ecologista – apesar de tudo contraponto indispensável –, destrói paulatinamente as energias do poder dialogante, manietando-o no empreender dos projectos. Aplaude-os quantas vezes a mãos ambas. Afasta-se depois brandindo o gládio do interesse público. É sinal dos tempos, refrega onde o governo tem sempre a porta aberta.
No conseguir altear-se mais em metas ousadas, no fazer bem feito, é preferível ter os melhores ao seu lado, sem temor de sombras. Habituámo-nos a ter uma prática de tolerância bem elevada em relação ao que nos rodeia. Profissionais diferenciados nas minhas instituições, interessados em lançar projectos alternativos, seus, tiveram algumas vezes declarações públicas contrárias aos interesses de quem lhes paga. E nem uma só vez se lhes chamou à atenção.
Num fórum social recente, dos maiores da América do Sul, tive o ensejo de divulgar a mais ampla campanha mundial de apoio contra a fome, a doença e a ignorância nos países de expressão oficial portuguesa. Já o fizera há meses em Nairobi de forma mais discreta, com a mão de muitos países africanos. O que apenas testemunha quão falsa é a representação social exaustivamente generalizada onde o egoísmo substitui a solidariedade.
Mau grado a «pequenez» do ensino em Portugal é notória em certos escalões etários uma ideia de exigência, de tolerância e de solidariedade.
Há meses em resposta a alguém Sócrates acentuou dever ter prestado mais atenção à cultura, a parafrasear o primeiro presidente da UE, mas em franca vaga irónica. Apoucava as perguntas e não outra coisa. Isabel Pires de Lima e Pinto Ribeiro cumpriram no essencial e com o orçamento. Mas, lembrando Sérgio Godinho, entre a amostra e o verdadeiramente de assumir como cultura vai ainda o «passo dum canhão».

Hpinto
Agosto 09

FOTO: Pinto Ribeiro, ministro da cultura

domingo, 30 de agosto de 2009

«BOCAS» PARA TODOS OS GOSTOS


Ao aperceber-me do entendimento como contraditórias, feito sobre declarações proferidas por certas personalidades, por banda de comentadores e leitores, logo a encontrarem explicações tão singelas quanto as palavras em apreço, lembro-me da tranquilidade majestosa do Pico, na ilha da montanha, tantas gerações já o viram assim.
Tantos ilustres já tiveram «saídas» de tal jaez, por igual inócuas!

O autarca independente, respeitado, condecora o primeiro ministro, mostra ressentimento pela exclusão dos amigos proponentes da sua candidatura à Câmara e admite votar livremente. Quem não se sente… É incongruente ou será incómodo a algum nível? Se o antigo reformador comunista, ministro socialista dos anos noventa, entende que o programa da oposição «separa melhor as águas», porquê atribuir-lhe a intenção de alisar o caminho para o bloco central (se tal fosse assim, para mais nesta altura, que disparate!), e não admitir as declarações emitidas, tão simples, exactamente como o seu genuíno pensamento? O aforismo popular diz «só os burros não mudam». Se a senhora de quem se disse «até o Rato Mickey lhe ganha» muda de partido, mantendo a ideia já expressa, lógica em autárquicas, de apoiar nesse domínio uma pessoa doutra formação, sua amiga, pode ser confuso, mas é legítimo e coerente, imoral não é certamente.
As interpretações mais correntes são igualmente legítimas mas perfilam-se a meus olhos como menos lisonjeiras para carácter e intelecto dos citados.

Hpinto
Agosto 09

FOTO: Maria José Nogueira Pinto

O FAZER DE CONTA


Uma luz ténue, a raiar o sagrado, brilha-lhe nos olhos feitos segredos. O soba Ritenda tem a noção total da hipérbole de esforço, notável, do chegar ali. Di-lo naquela assembleia da pacificação com a força do sempre. Memória sofrida alguma o contraria.
A nível nacional, e de forma assimétrica pelas províncias, avulta esse empenho das autoridades de Angola, incontornável. Pesa aí francamente o aconchego da OMS, do CDC, de Rotary International (RI) e de tantas outras organizações, nomeadamente ONG – são duráveis exemplos a irlandesa GOAL, sedeada em Saurimo, a belga MSF, moira no isolamento extremo de Xa Muteba –, para promoverem melhores cuidados de saúde, e, singularmente, o crescimento da qualidade da vigilância epidemiológica.
Testemunhei isto mesmo nas conversas com José van Dunen, actual ministro, um homem bom, motivado como poucos para a mole imensa e informe de trabalho na sua frente para conseguir progressos, com responsáveis do ministério, e com o representante da OMS, Daniel Kertesz, um lutador, sensato com a experiência acre do Sudão e do Zimbabué. As referências destes dois homens nos Estados Unidos e em Genebra são formidáveis.
Este apegamento enérgico é ainda admirável quando observado no Lunda Norte. Mormente no trabalho e na capacidade de mobilização do ponto focal da OMS, Valter Firmino, na sua articulação subtil e criadora com os técnicos do ministério da saúde a todos os níveis e com a comunidade ampla.
O Valter é um rapaz que transpira competência. Respeitam-no muito em Luanda nos departamentos de diferente progenitura afectos à saúde. Esperava-me no aeroporto de Dundo com o Morais, motorista afável. Foi o meu interlocutor local, cicerone e amigo, com uma dedicação comovente. Está aqui há quatro anos, fugiu sob o fogo de metralha criança ainda de cinco anos, quiseram livrar-se dele os do seu sangue na fuga de canseiras sem par. Os militares impediram-nos. Cresceu na Zâmbia num campo de refugiados, é bem humorado, culto, atento ao mundo. Tem mulher e filhos em Luanda. Impõe-se facilmente pela inteligência, disponibilidade, bom trato.
Na manhã de domingo, reconhecimento da cidade, o Morais ágil e suave a evitar as crateras, convidei a ambos para almoçar no Hotel Chitato onde me alojo por alguns dias. É uma construção térrea, sólida, no eixo de edifícios coloniais da vila homónima. Fico a saber pouco da guerra porque o Valter está atento, hábil a evitar deslizes. «Esta gente é mais virada a feitiço, desculpa lá Morais, é a tua gente, se morre alguém a culpa é do vizinho, nunca do SIDA», diz-me com ar sério. «preservativo, doutor, mulher não quer». E o homem logo acrescenta, «doutor, quer que minha mulher se ponha a andar ou me traia com outro?», é a charola geral. «É mesmo», remata o Morais.
Sabemos, afinal é riso amargo, 95% dos infectados pelo VIH vive em países subdesenvolvidos, doze milhões de órfãos estão sobretudo no sul de África. Não há economia de mercado capaz de suster tamanha infelicidade. O professor Américo Mendes é taxativo quanto à necessidade duma economia solidária, um grande projecto de «ida à lua» à escala mundial para dar a volta à SIDA.
As dificuldades são muitas, a apatia vem da direcção provincial até aos técnicos do município e aos dos postos de saúde. Este tipo de director, caudilho local, por ali anda há décadas, situacionista, a desculpar as más práticas, o delas saber-se inquinaria as relações de poder, é um protótipo de dirigente disseminado pelo mundo. Quantos conhecemos assim!?
Há facetas de difícil manusear a contundirem com a ainda incipiente vigilância epidemiológica, sobretudo na detecção de Paralisias Flácidas Agudas com amostras oportunas de fezes (quanto mais casos encontrados e estudados em tempo útil, negativos para a pólio no laboratório, tanto maior a convicção de o vírus não circular por perto), na identificação de casos de sarampo e na qualidade da vacinação. A vigilância activa é pífia quando o estímulo não parte do ponto focal OMS.
Dois tipos de oportunidades deram-me uma perspectiva muito rigorosa da verdadeira ficção da saúde.
As reuniões de trabalho no Hospital do Dundo, clínicos e enfermeiros a um tempo ou com médicos coreanos e vietnamitas, em separado, cada uma delas com tradução para as suas línguas, deram-me conta do não ajuste, dos recursos escassos às necessidades múltiplas. Tive noção clara de até onde pode conduzir a insuficiência organizativa quando paramentada por nepotismo e hipocrisia.
Ao conviver com todos os sobas, sobetas, igrejas, o partido MPLA e enfermeiros, em Kassinguidi, no município de Cambulo, o tempo a evolar-se, palavras vertidas na língua local, quedei-me em entusiasmo não contido, porventura desmesurado. Não fora a imensa mobilização social partilhada com estes responsáveis tradicionais, os líderes políticos e religiosos, os kimbandas, curandeiros estabelecidos, e ninguém faria a menor ideia se o vírus da pólio existe ou não na região. Ou se está iminente novo surto de sarampo. Descontado o paludismo, sem defesa, é a doença evitável a matar mais crianças de menos de cinco anos.
Eles são peça chave no sistema de informação da saúde e na pesquisa de casos, numa escala que supre em boa parte insuficiências e má qualidade do conhecimento, sorvido nas capelas oficiais.
É sobremaneira importante um sistema de vigilância epidemiológica a evoluir com rapidez para indicadores qualitativos Isso está a ser feito, com maior ou menor rigor, através dos Antenas Provinciais (a articulação dum técnico qualificado da OMS, o ponto focal, com um técnico do ministério da saúde, MINSA). A estrutura reproduz-se ao nível de municípios e comunas, embora com uma eficácia já muito diluída em qualquer destes patamares. A Busca Activa de casos é muito mais fiável se eminentemente comunitária, quando a procura de apoio e a notícia do caso partem dos vizinhos. E de tanto mais rigor quanto maior for o crédito do mensageiro OMS.
A dimensão do empenho exigido pela natureza da luta antivírus é esmagadora. No filme The Field, anos 90, que a poucos lembra para minha tristeza, Richard Harris e Sean Dean emprestam mestria à grandeza de alma de dois personagens. O pai é um homem obcecado pela dureza da terra alugada e pouco dócil, dedicou uma vida de trabalho insano a dobrá-la. Mortifica-o um calvinismo fero, intolerante, que lhe não perdoa os excessos exigidos na contenda desigual com os elementos. E ao filho, interiormente vergado ao peso da incapacidade em sustentar tamanho esforço contido na dádiva paterna, destrói-o um último sopro de apego a uma outra vida.
A história não registará em nenhum memorial o nome dos heróis anónimos, numa natureza em tudo hostil, persistindo sem quebra na procura do último caso de doença. Fica na escrita testemunho simples, como se levantamento dum tempo presente mítico.
Mesmo se na condição de consultor das mais importantes agências do mundo a vida pode complicar-se em qualquer missão, seja qual for o país, e mais ainda quando se percorrem vários num horizonte temporal curto.
O kit de miscelâneas recomendado pelos oficiais da segurança das Nações Unidas é precioso, acaba-se a necessitar de tudo incluindo a lanterna, os toalhetes húmidos, o canivete suíço.
Também é desejável estar-se atento a detalhes, os motoristas comeram ou não num ou mais dias, estarão em condições de guiar, aquele saiu da estrada sei lá quantas vezes, o desvio das irregularidades geradas pelas minas explodidas (será seguro quando se sabe que à desminagem das bermas não foi dada prioridade?), torna-se necessária voz grossa porque é mau chegar de noite, a estrada é amarela nas directivas do Security Field Officer.
A OMS tem vindo a promover em vários países com o apoio de RI a política de incentivos financeiros. O Antena do MINSA recebe uns tantos dólares por cada saída com o da OMS. E esta prática, com cambiantes, estendeu-se até aos técnicos nacionais.
Mas em Angola o terreno é adverso. Dificilmente um sistema de vigilância epidemiológica poderá vingar se os postos médicos estiverem vazios. Porque isso será monitorizar o nada, a praxis do faz-de-conta.
A quase absoluta descentralização da gestão nos governos provinciais reduz significativamente a operacionalidade técnica. As direcções de saúde dependem em primeira instância do governador da província, do ministério do interior. Poderia ser um passo democrático agigantado se o país tivesse os recursos indispensáveis e regras técnicas estabelecidas, ou ainda a margem de manobra suficiente para uma aplicação eficaz. Mas não tem. Razão acrescida para não ser fácil o período de transição organizativa para melhores dias.
Mostrar caminhos pelo exemplo é das estratégias melhor conseguidas sem importar o contexto. Desempenhos a contrario são absolutamente contraproducentes, sejam quais forem as razões. Afastam os clientes dos serviços quando é imperioso pretender seduzi-los na procura.
Vejamos o «normal» acontecer. Numa semana inteira ficam todos os postos médicos fechados, hospitais em funcionamento mínimo, por via do «refrescamento» técnico dos profissionais do Lunda Norte. E o mesmo acontece aquando da visita do primeiro ministro a Saurimo. É francamente não pedagógico...
Há uma acusação muito generalizada, a brotar da população conformada e dos chefes tradicionais até aos sectores mais esclarecidos da novel burguesia urbana. Faz-se venda ilícita ou cobra-se dinheiro no aplicar as vacinas, por parte dos trabalhadores da saúde. Afugentam-se ainda mais os clientes. Toda a gente sabe disso. Está em todos os relatórios, nomeadamente no dos encontros entre as Agências.
Ingrato é saber em rigor quem trabalha no terreno e quando. Alguém está no local certo quando deve estar? Ao encontrar-se A então B já saiu. Ou foram-se ambos embora, não importa quais os profissionais. São sobretudo os mais «responsáveis». Indicia desleixo em cadeia, de cima a baixo.
Alçada Baptista desabafava em A Cor dos Dias, se ia a África ficava «encantado com aquela capacidade de preguiça ostensiva. Dá-me uma sensação de bem-estar que não encontro por essa Europa fora onde as pessoas já trazem na cara a ansiedade e a angústia de quem não pode parar». Eu comungo desta percepção. Esta convivência talvez fizesse bem a muita gente, a impedisse de viver em corrida à procura da perfeição ou da máxima retribuição, esquecendo casa e parentes. Quantas vezes sentem com mágoa os excessos de envolvimento na vida e mesmo nas causas sociais, a afastarem-nos de quem amam? Essa preguiça saudável não se enquadra neste retrato.
Deixa-se atingir o stock mínimo nas vacinas a nível provincial, chegam mesmo a zero. Tanto mais grave quando o abastecimento foi recente. E mais ainda quando não há rasto delas. Como os postos estão vagos só podem ter ido parar ao lixo ou ao mercado. Isso não invalida as estatísticas a baterem certo, a haver quem receba a peso de ouro e reitere nelas crer.
Há postos médicos portas abertas o dia inteiro sem lá estar o responsável, ou qualquer outra pessoa – até onde o sarampo passou em rebanho há escassas luas –, fraco trabalho comunitário.
Havendo um micro plano com financiamento central assegurado pela OMS quanto a incentivos, não se justifica a inépcia em pôr a funcionar bastiões avançados e postos móveis de vacinação onde a mobilização social é menor. Mesmo com a explicação de o pagamento daqueles, combustível do sistema, ser demorado.
A falta de higiene à volta e no interior de hospitais, ou mesmo enfermarias em estado de indigência perto do sem retorno, como no Dundo e em N’zage, pouco tem a ver com a política de resíduos hospitalares, desculpa dos responsáveis. Na comunidade há sempre alguns recursos suficientes para o evitar. A exposição dos lixos hospitalares em plena rua é outro péssimo cartaz. Não inculcam mensagens positivas. Desmobilizam.
Os registos clínicos são insuficientes, mesmo quando utilizam suporte oficial, grandes lacunas em diagnósticos, ausência ou insuficiência de sinais e sintomas, a prejudicar a Busca Activa. Seria por certo evitável pelo «refrescamento» dos responsáveis provinciais, por sua vez a replicarem-no a outros níveis.
É clara a falta de supervisão qualificada, com ascendente técnico e político. Com um per diem baixo, encolhendo os incentivos, qual o dirigente a querer pôr-se a caminho?
Há problemas de recursos e organização mais difíceis de ultrapassar, eventualmente minimizáveis. Os cortes de energia e a carestia de petróleo levam ao cancelamento da imunização As vacinas deterioram-se ao não funcionar a rede de frio. Ora as vacinas são oferta internacional feita com o sacrifício de muitos cidadãos do mundo!
Índices de vacinação superiores a 100% sinalizam em regra actividade insatisfatória, superior à subvalorização das quotas de população. E tanto pior quando os postos não têm gente e o mopping-up feito em bairros de Chitato, como Estufa ou Aeroporto, demonstrar praticamente cem por cento de não vacinados.
A realização dum Censo, coisa bem cara, é premente. Ainda há refugiados a entrarem no país mas não há qualquer êxodo interno significativo a não ser a deslocação de Malange para o Huambo e a suposição de que Luanda parece ser cada vez mais povoada. Ninguém sabe quantos são os angolanos. Um ministro diz não ser grave ter um terço da população pobre e gera indignação. Alguém ironizaria com desdém, como ouvi na Zâmbia, aqui até o diabo tem as malas feitas.
Em 2004 participei numa das reuniões de mais significado para mim. Num dos andares mais elevados do Hotel Rhiga em Osaka, no Japão, às sete da manhã, o meu amigo Robert Keegan, então director do CDC/Atlanta, expôs os obstáculos de maior dificuldade de transposição para vencer o 1% remanescente de casos de pólio na terra. Escutava-o uma plateia das mais ecléticas incluindo seis ex-presidentes de RI, o presidente em exercício Jonathan Majiyagbe, os dois presidentes eleitos, Glenn Estess Sr. e o também meu grande amigo desde a Conferência O Século do Bem Estar, em Coimbra, Carl-Wilhelm Stenhammar, Robert S. Scott e Carol Pandack, Otto Austel, mais membros da OMS e tantos outros lideres e conselheiros dos cinco continentes. A ninguém pareceu de vergar a espinha a dureza do empreendimento. Fiquei ainda mais ansioso por chegar a hora de partir na missão seguinte desta corrida final pela eliminação da pólio.
Agora ao correr a África equatorial ao encontro de novas culturas, racionalizando o impacto negativo do quadro sócio económico no relacionamento interpessoal, embevecido pela altivez de quem nada tem ou a pouco aspira e pela beleza feminina em tanta diversidade de tons de negro, mamilos que se eriçam ferventes contra o formoso colorido dos tecidos ante um olhar mais interessado e matreiro, quase a mergulhar no desejo do apelo a perdão, igual ao dos pecados santos, lembro-me da arena de corridas em Olímpia e vejo-a como seara de espinhos.
A estrutura oficial dos postos médicos públicos não inspira confiança à Busca Activa de casos, e daí a monitorização ser de efeito duvidoso. E muito menos ainda por parte da população, às vezes sem ter em conta a tradição do feitiço, do mau olhado agoirento dos vizinhos, a acorrer aos kimbandas porque se sente mais segura. Os cidadãos sentem, os enfermeiros pouco sabem. Vi padres católicos a desacreditarem o sistema em pleno púlpito – e invectivei-os com educada brandura – a mais acentuar esta tendência.
Só Deus sabe quando há medicamentos. Soro anti-ofídio numa zona onde morrem pessoas todos os dias por mordeduras de cobra venenosa, nem pensar! Tão pouco é penúria de dinheiro.
A política de larga descentralização na aquisição dos medicamentos e a ignorância vulgarizada dos médicos, mão-de-obra barata importada, são factores mais relevantes. A organização do conservar a vacina pela rede de frio em moldes distintos nesses locais, se bem que com mais envolvimento pessoal, de parelha com a minoração rápida da natureza causal, é possível e essencial, mas esbarra na qualidade do elo humano.
Pedir e obter o apoio de alguns dos administradores municipais, nomeadamente em Cambulo, onde se fizeram extensões da rede eléctrica do complexo diamantífero ENDIAMA, é um agradável vislumbre de a boa vontade ser mais operosa que o mando.
Médicos norte coreanos e vietnamitas são face dominante no corpo clínico. O conhecimento da patologia tropical iguala o que têm da língua, que lhes é de todo estranha. Lembra-me o inimaginável, o Zé Cagão a fazer psiquiatria em Macau com um intérprete chinês. Deveriam ser actualizados na sua própria língua, possível mas a exigir um tempo que a rotação célere deles inibe. E falta quem o faça. «Nada é possível sem os homens, nada é duradouro sem as instituições», diria Jean Monnet.
O remoinho de diagnósticos errados associado à precariedade medicamentosa e à prestação técnica de má qualidade dos enfermeiros – de pouca formação, ainda assim a salvarem a honra do sistema – patenteia um grau baixo de cuidados e o magro prestígio das instituições perante as gentes.
É sempre precioso voltarmos à madrugada das coisas para ver e sentir pulsar o coração destas.
Em regra os técnicos municipais só podem visitar as comunas e os lugares à boleia. Basta às ajudas permitirem fazer-lhes chegar uma ou outra motorizada e em muitos municípios baixará a falta de informação para a vigilância epidemiológica activa. O grosso das motorizadas e bicicletas, oferta de organizações internacionais, já se desmoronou de podre. Algumas das motas foram resgatadas por médicos chefes ou outros superiores para seu próprio uso. O que não deve impedir a comunidade internacional de continuar a superar esta dificuldade.
A patologia dominante no Hospital do Dundo é infecto-contagiosa, do âmbito da medicina tropical. A mistura de patologias por sala, quando pelo menos em situações como a malária, a matar dezenas de crianças por semana em pequenas comunidades, enfermarias vocacionadas poderiam fazer descer a casuística, é um obstáculo contornável. Difícil é a sua advocacia por incompetência do caciquismo instalado.
Grande mesmo só a mágoa de ver tantas crianças morrer de paludismo sem que haja solução viável. O soba Fortuna viu finar-se ontem a netinha. Os sobas mais velhos também gostavam de estar vacinados, mesmo não sabendo bem para quê. Os filhos sobrevivem-lhes muito jovens ainda. Gestos simples poderiam operar bons resultados visíveis.
Como se fosse coisa de somenos não se assegura a continuidade do trabalho de cooperantes internacionais, muito qualificados. Com pouco se tem feito muito. Mas corre-se o risco de mesmo esse muito poder servir para pouco ou nada.

Henrique Pinto
Agosto 09

Foto: José van Dunen, meu amigo, ministro da saúde de Angola

PÚBLICOS, SONDAGENS, ACTORES E PARTIDOS


De ora em diante alarido e azáfama serão fortes. Mas os susceptíveis de modificarem na essência o seu voto habitarão universo restrito. Tal o assédio vivido desde há ano e meio.
O governo reagiu à derrapagem das economias mundiais com acerto, acima da maioria das economias robustas. Ainda assim, a oposição fulanizada, muitas vezes injusta, poderá afectar a maioria social. Não se sabe como e quanto.
Há 40 anos estavam no início as sondagens políticas. O trabalho estatístico no ramo evoluiu muito. A realização sucessiva de eleições gerou um histórico propiciador duma avaliação rigorosa das tendências. Todavia, à medida que o fenómeno da abstenção tem ganho relevo, o tentar manter a qualidade de previsão criou envieses. Perdoem-me os especialistas. O meu conhecimento da matéria é mais limitado. Mas não me inibe de dizer, é bem possível vir a acentuar-se o desvirtuar de resultados das sondagens, a induzir em erro partidos, comunicação social e eleitorados.
Com o actual método de eleição parlamentar tão cedo não há volta a dar-lhe.
Queremos esperar de partidos a eleger e governo a formar coragem para, logo ali, se entenderem a alterar este processo. O existir de círculos uninominais – metodologia do meu agrado, esgotado como está o presente sistema – não impede à cabeça a formação de governos bacocos. Ao obrigar indirectamente os partidos a realizarem primárias no seu interior, crescem as possibilidades de os candidatos passarem a dizer algo a um dado sector de eleitores e de a disciplina de voto vir a ser mais flexível.
Marques Mendes foi claríssimo a este respeito no discurso de Castelo de Vide. Posiciona-se num patamar eminentemente social-democrata, comum ao centro de PSD e PS. Seria óptimo se tal plataforma estimulasse consensos em torno desta opção, já defendida por cada um dos partidos em momentos desfasados.
Estes mesmos partidos captam o voto liberal. O PSD agrega parte do voto conservador. De modo algum o empresário conservador confia em Portas, por culpa do próprio, ou em outros pesos pluma da área.
Noutro formato eleitoral poderia ser útil ao país e à alfabetização política dos portugueses, surgirem grupos formais no tecido liberal e conservador. Não é de somenos o bloco de esquerda prosseguir alternativa dos não alinhados na banda eleitoral. Louça já admite o bloco ser poder! Em ambos os casos isso não depende do voluntarismo. Relevante é o país político poder ter maiorias sem a necessidade imperiosa de tal carecer dum só partido.

Hpinto
Agosto 09

FOTO: David Cameron, presidente dos Tories, conservadores ingleses

SOB O SIGNO DE SANTO EGÍDIO


Sempre que estou em Roma, lazer ou imperativo de trabalho, não deixo de visitar a Comunidade de Santo Egídio e os amigos seus integrantes.
Em pleno Transtevere, dos bairros mais antigos de Roma poupados pela saga da monumentalidade absurda de Mussolini, e um dos melhores exemplos em recuperação de centros históricos, está a comunidade laica que é nos dias de hoje universidade do diálogo pela paz.
Quando os espaços de comunhão e de confluência no pós guerra do século XX são empobrecidos pelas estratégias económicas e expansionistas do século XXI, é importante ter-se consciência de que estas situações são mais e mais efémeras com o andar do tempo. Os espaços de partilha como Santo Egídio são dimensão no inevitável reconstruir do universo da concertação.
Desde que o planeta pensante tomou conhecimento da materialização das relações de paz entre a Renamo e a Frelimo em Moçambique, obra da comunidade e muito particularmente de negociadores exímios como o Reverendo Matteo Maria Zuppi ou o Professor Andrea Riccardi, a Piazza de Santo Egídio passou também a ser visitada por políticos de toda a parte.
Um detalhe curioso conhecido de poucos é significativo desta abrangência. Conseguida a adesão do líder rebelde para abordar a paz possível havia que chegar até à direcção da Frelimo com a força necessária para regatear o diálogo. Alguém se lembrou de Enriço Berlinguer, então secretário-geral do partido comunista italiano, católico fervoroso, praticante assíduo na missa dominical em Santo Egídio. E foi ele o intermediário qualificado entre os negociadores e o partido do governo moçambicano.
Uns desses políticos visitantes, como Robert Mugabe, certamente lá irão em busca de visibilidade com manto de tolerância, a escamotear a sua violência xenófoba e radicalismo político.
Outros, muitos, fazem-no em busca do seu Graal, ou de receita mágica a limpar-lhes os mandatos de escolhos dolorosos face a oposições armadas, terrorismo, choque religioso.
Mas muitos outros seguem a cauda da estrela para se engrandecerem intimamente no diálogo, prestando o seu testemunho abalizado, colhendo a ideia magistral, fruindo os dons sábios da experiência.
De Jaime Nogueira Pinto, com quem tive o gosto de ali me encontrar, a Mário Soares, um convidado assíduo bem respeitado, são muitos os portugueses, intelectuais e homens da política, que é habitual saber em Santo Egídio.
Quando as listas telefónicas deixaram de fazer sentido porquanto os nove milhões de telemóveis, sem listas e sem possibilidade de consulta genérica, ampliaram a comunicação individual mas estabelecendo afunilamentos tais, ficamos perplexos. Como sabemos dos 90% de toda a informação noticiosa no mundo a ser veiculada apenas por duas agências.
Ao mesmo tempo há todo um universo de comunicação transversal e global via internet –muitos dos inúmeros sítios e blogues constituem o melhor existente na discussão educada, bem escrita, culta – a deixar atrás esses estreitamentos cancerígenos, agoirentos, falso individualismo cósmico. Vezes sem conta, este sistema reticular é minorado pelo fatalismo imediatista de muitos pensadores de paz e futuro.

Hpinto
Agosto 09

FOTO: Andrea Riccardi

ESTENDER A MÃO CHEIA


As sociedades desenvolvidas mostram sintomas que têm a ver com a mudança dos valores que dominaram a civilização europeia. Vamo-nos dando conta do grande equívoco cultural, sobretudo na atitude em relação aos povos em desenvolvimento.
As entidades parceiras na Iniciativa Global da Pólio deram ao mundo um exemplo notável com o programa PolioPlus minimizando estes estigmas neocolonialistas, abordando as sociedades em cada continente de acordo com especificidade e matriz.
Mesmo tendo em atenção a cultura organizacional ser estreita no apreciar o empenho das estruturas irmanadas, dos Outros, o mais sedutor é o registo, em jeito de conclusão assente em três comentários, sobre a maior campanha mundial de saúde pública do sector privado.
Muitos como eu advogam a soberana eficácia da política dos pequenos passos, seguros e proveitosos. A provar o invés, uma atitude maximalista, generalizada à escala planetária, a envolver tantas organizações e governos em parcerias e associações transitórias, milhões de voluntários e contribuintes, resolveu com prudência e esmero, sem conflitos dignos de nota, um dos problemas major bem dolorosos da Humanidade.
As ondas de belicismo e fanatismo religioso cristão, manto da visão imperial dos seguidores da última administração americana, contrapondo-se ao radicalismo islâmico, acrescentaram danos fundos a esta turbulência de valores. Mas haverá sempre espaço para nos interrogarmos se um passo como a campanha PolioPlus não resolverá outros constrangimentos do mundo, porventura ossos menos duros a roer.
O Alçada Baptista dizia não acreditar «no magistério cultural dos países desenvolvidos de que certas formas de totalitarismo exportadas para o terceiro mundo, através da universidade europeia é, possivelmente, a sua última expressão colonizadora». Teria com certeza razão mas estamos, felizmente, perante uma excepção exemplar.
Foi necessário montar uma teia imensa e flexível no planeta, técnica e normativamente centralizada na OMS, a levar a vacinação massiva aos lugares recônditos da terra. Venceram-se barreiras políticas de sucesso impensável doutro modo, atravessaram-se campos de metralha com o assentimento dos contendores, fossem rebeldes somalis ou da Eritreia, guerrilheiros da UNITA (de início Savimbi ter-se-á mostrado grosseiramente indiferente, em conversa breve via rádio com Luís Vicente Giay, então presidente de Rotary International), ou os temíveis «puritanos» talibans.
Nos últimos anos a iniciativa global da pólio enxertou sobre a estratégia de combate a esta doença, pela vacinação e Busca Activa de paralisias flácidas agudas, a de redução da mortalidade infantil pelo sarampo. Já se administra um suplemento de vitamina A em simultâneo com a vacina oral da pólio, aquando das vacinações em massa, a contrariar a cegueira. Com o programa integrado de combate às duas patologias, vai-se do mesmo ponto na vacinação para o emergir de condições na imunização de rotina. A espantosa cadeia de frio, o labor humano esforçado e intransigente globalmente envolvido e a não menos impressionante rede de mobilização de pessoas para a sensibilização coerente, aceitável à luz de cada moral, erguendo-se em vários continentes, estão a ser elementos chave no implantar e sustentar dessas rotinas. É o embrião de serviços de saúde universais que evoluciona a ritmos diferentes um pouco por todo o mundo. É das perspectivas menos abordadas no programa PolioPlus, mesmo quando resultados e sentido último inerente tenham para a maioria dos povos o mesmo carácter revolucionário dos primórdios da agricultura.
Muitos têm sido os grandes doadores a título individual, sensibilizados, a aderirem à erradicação da poliomielite. Em lugar de honra figuram Bill Gates, Ted Turner, Mia Farrow, Martina Hingis, Dikembe Mutombo, Pavarotti, Jerry Lewis e Dola Parton, entre tantos mais. O exemplo frutificou. Estendeu-se a muitos outros campos. Estes mesmos e logo tantos mecenas acrescidos de par com instituições mundiais ficaram tocados a prevenir a SIDA, a minorar os seus efeitos e a engrossar o esforço financeiro do conseguir uma vacina. Bill Gates promove em Moçambique um centro de pesquisa na senda duma vacina eficaz contra a malária, praga que imola milhões de crianças ano a ano, quiçá o indicador mais expressivo da falta de qualidade de vida dos povos equatoriais. O programa GAVI tem financiamentos privados e públicos. Destina-se a contrariar a mortalidade em África mediante a aplicação de novas vacinas.
Talvez seja altura de os parceiros na iniciativa global da pólio e quantos possam entender o alcance de envolvimentos tais, darem o exemplo global no suscitar uma forma superior de organização para a qualidade de vida. Sabe-se, edificar um serviço nacional de saúde é investimento assaz dispendioso, tantos os recursos a formar e organizar, incluindo o próprio tempo. O presidente Obama, tal como Clinton, infelizmente, está a ser contrariado neste intuito. Montar alguns destes serviços compreensivos em países modelares na erradicação da pólio, ou em regiões igualmente paradigmáticas de outros, é um desafio organizacional reprodutível no terreno e em apoios, capaz de multiplicar outros recursos e formar mão-de-obra local, apto ainda a, no exemplo, abrir caminhos ao alívio da pobreza e a estimular a auto-suficiência.

Hpinto
Agosto 09

FOTO: Mia Farrow

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A VIDA EM COMUM




Há trinta anos vivíamos a agonia do regime instaurado em 1926 com a sublevação militar de Afonso Costa, e que com o longo consulado de Salazar e a mão de Marcelo Caetano já no estertor, se prolongaria por cinco décadas.
Aqueles dias de Março e Abril eram ainda assim interessantes. Fluía um sentir escatológico, a sensação de qualquer coisa que estava a mudar, mas em que direcção?
Pela primeira vez numa história multissecular como nação Portugal sacudiu o autoritarismo centralista, cheirou a frescura física e espiritual da democracia com o uso pleno da liberdade de expressão, de criação. Sentia-se que era necessário modificar o homem, a cidade. Havia que inventar o futuro. Tudo era política, dizia-se, à luz dum marxismo mal deglutido. Mas algo escapava à política. Em termos muito concretos, cada um devia modificar-se a si próprio.
Em pouco mais de três décadas operámos a maior transformação de sempre. Mas o grande risco das experiências comunitárias é o sectarismo que leva a vivermos fechados sobre nós próprios. Para o evitar há que passar por várias experiências, deixar que elas nos enriqueçam. O empenhamento social é assaz importante. Procurar responder aos desafios do universo obriga ao esquecimento de nós. Alguém pode dedicar todo o seu tempo a procurar mediações internas. Mas a alegria, as esperanças, as angústias alheias, obrigam-nos a sair da nossa própria lógica interna e de auto – referência. Incitam-nos a sair da casa construída com esmero.
Atente-se na palavra dos analistas nativos no maior órgão de comunicação escrita nacional, ou mesmo na de comentadores televisivos de meios universitários, é fácil apercebermo-nos dos efeitos perversos dum neoconservadorismo inventivo mas fruste por igualmente ingerido em correria. Um ar ilusório que lhe sobrevém, não tanto do sentido que lhe deu Irving Kristol, mas na pior das asserções porque inamovível no desdém pelo diálogo, ao jeito da guerra fria. Uma mentalidade de tédio dum mundo bipolar, como o conhecemos há pouco, dividido entre Bush e o terrorismo, por exemplo. Coisa impensável nas grandes revistas mundiais, da Time à Newsweek. A clareza das suas análises faz esquecer as teses deste alinhamento enviesado ao arrepio duma estimulante multipolaridade.
Dialogar é um imperativo hodierno. Nestes dias, dando-me à cogitação numa das esplanadas fascinantes sobre o Bósforo, imerso num cosmopolitismo que certa política e cultura centro europeias ostensivamente ignoram, ocorreu-me – não sendo um nostálgico do sistema otomano –, que, traço bem vivo ainda na Istambul moderna, numa Europa intolerante cristãos e judeus puderam viver tranquilamente num estado confessional muçulmano.
Mas o diálogo não é coisa de dez anos ao fim dos quais se possa fazer um balanço. É escolha que compromete uma época, que se cultiva num século, que implica as opiniões públicas. Tudo querer decidir a alto nível é sempre um enfraquecimento, um sinal de envelhecimento.

Hpinto
In Jornal Região de Leiria

FOTO: Irving Kristol, um dos gurus dos neocoms

A DOÇURA DOS BUCHVALD


Não sei se foi ainda em Leiria que Eça de Queiroz escreveu que as revoluções se passavam em Lisboa e o país aderia por telegrama. Eu que sinto uma profunda admiração pelos autarcas mas que tenho também a convicção firme de que um porte ético exemplar com visibilidade pode contagiar as atitudes, vejo na palavra de quem tal defende um enorme potencial de esperança.
Já uma crónica de Vasco Graça Moura de há tempos no Diário de Notícias me amargou o pensamento. Um homem que tanto estimo, intelectual de mérito, ao polarizar os comportamentos políticos na suposta decência e nos zeros à esquerda, parece-me a politicar com facilidade obscena!
Ocorre-me por isso uma pequena história (…) vivida há pouco em Salzburgo. Tinha aceite o convite para jantar. Na station van que nos transportou desde o hotel soube que me calhara um clube de gente jovem da cidade vizinha, Heillein, centro da antiga exploração de sal sob as montanhas.
Desde que comecei a fazer clínica que as pessoas de mais idade estabelecem comigo rápida empatia. E assim aconteceu com um casal octogenário duma doçura e simpatia extremas com quem entabulei conversa. Dei o braço à senhora, a Michelle, e ajudei-a a andar tal o seu passo trôpego. Acabámos por nos sentar à mesma mesa, apenas os três. O fascínio da sua história pessoal foi-me envolvendo. Judeus austríacos, tiveram tempo de fugir pela Bulgária ainda em 1939, antes do anchlüss. Foram fundadores orgulhosos do Estado de Israel ao lado de Ben Gurion. São membros dum clube de Telavive onde judeus e árabes fazem invejável companheirismo. Na sua linguagem não perpassa o menor laivo de fanatismo, entendem o problema da paz entre Israel e a Palestina como uma questão que passa acima de tudo pelo tempo, pela economia e pela educação, e pelo apoio da comunidade internacional mais esclarecida, não lhes escapando uma suave censura ao belicismo conjunto de Sharon, Arafat, Hamas, Bush, Netanyahu ou Ahmadinejad como alternativa para a paz que o não é.
Fiz constar aos anfitriões quem eram os meus amigos de mesa e, um a um, qual dança índia ou africana, foram-se dispondo em círculo. Com perguntas a borbulhar e flashes a bulirem. Foi uma fervurinha até se fazer uma única mesa, rendida ao encanto dos Buchvald. Dias depois vi os grandes da intelectualidade do mundo curvarem-se em respeito perante tais ícones vivos da tolerância.
Sinto-me hoje como se as sacerdotisas do oráculo me dessem um bom augúrio. Sei quão incisiva pode ser a força do exemplo. Lamento apenas aquele tom escusado de escriba aparatchic a dar da inteligência dos portugueses uma ideia tão vazia de futuro.

Hpinto

Adaptação de texto para RDP Antena 1

FOTO: Vasco da Graça Moura

PAIXÕES DA MUDANÇA


Sabe-se que as primeiras damas se hostilizam com discrição. «Há anos quando convidei uma alta personalidade no defeso», lamenta-se um ilustre do jet set, «foi-me imposta a condição de não estar presente quem lhe sucedera». Dir-se-á que são hábitos antigos, faltas venais. Mas também é do senso comum que para muitos se maiores são as loas que deitam ao respeito pelos princípios da democracia, mais se apressam a questioná-los quando o ambiente lhes é turvo. Quantas vezes os cordatos, mesmo que à prova de bala, se mostram grosseiros sem pudor quando contrariados. A natureza humana revela-se fraca e imprevisível se lhe faltam as regras e as instituições são fracas. Ao prevalecer um modelo de sociedade sem opiniões robustas autónomas das dos partidos e sem um montante expressivo de obras independentes do estado, quem para além do espectro de ignorância e demagogia pode julgar interiorizar o sentido de democracia estabilizada? Dizer-se da democracia que está em crise quando as suas regras funcionam não caberá neste mesmo quadro meio esquizofrénico?
A propósito do Euro 2004 Eduardo Lourenço escreveu sobre a suposta «nostalgia do esplendor» em que «(...) a do fantástico revivalismo patriótico dos últimos vinte dias vive dessa pulsão de contornos, ao mesmo tempo sublimes e mórbidos e por isso, mais do que inquietantes, se não conseguirmos separar, na emoção e na exaltação positivas de um sucesso merecido, os laivos de ressentimento e do complexo de frustração que ainda as ensombram». Um complexo que, qual fogagem no corpo, parece inquietar também os dias que antecedem a certeza quanto ao próximo governo do país.
Todavia, essa «epidemia das bandeiras», o epíteto elitista de Augusto Seabra, este cosmopolitismo de povo acolhedor, vibrante, tem também muito do sentido de pertença, do orgulho de ser que, tal como a auto estima em falta, muitos sociólogos tinham por dificilmente reversível. Quando a globalização é o manto comum, é ainda a voz de Eduardo Lourenço, «uma espécie de dissolução de uma universalidade sem vivência assumida e personalizada, assistir ao regresso do “nacional”, do próximo, do nosso, do só nosso, como fonte de exaltação e de complacência a nenhuma outra comparável», configura uma imagem de quase paradoxo.
E que saudável contraditório este surpreendente exorcismo da frustração quando balancear entre o tudo e o nada é o tique predominante da linguagem corrente na comunicação escrita e falada! No que a nós respeita Alain Minc equivocou-se em cheio ao prefigurar um jornalismo de jornalistas a sobrepor-se a uma comunicação de interesses. No fim de contas, esta propriedade da palavra e a sua utilização como artilharia pesada na «guerra civil dos quotidianos» é, porventura, pecha séria da democracia portuguesa.
O que seria de nós se pudessem ver-se muitas outras formas de estar audaciosas e diversas a emergirem do pessimismo? Mesmo um descrente crónico do país lembrava há tempos que uma empresa alemã instalada em Portugal, só com técnicos e gestores lusos, encabeçava a relação das que apresentavam melhor qualidade de processo e resultados. A que se deve tal desempenho? Ao ordenamento das regras de trabalho e ao grau de exigência e rigor, seguramente, como à formação profissional de quem opera. Pouco importa avivar agora quem foram os responsáveis pelo mau uso do dinheiro que cá chegou e podia ter representado um enriquecimento neste domínio chave. Ao dizer que «(...) a entrada na União Europeia ajudou muito à passagem da efémera hegemonia da classe industrial para um híbrido social que designaremos de negócios e eventos» Medeiros Ferreira estará a apontar-nos que isso é condenável em si? Ele tem condições melhores que muitos para saber da enorme consideração por Portugal constatável na maior parte do mundo. E que por ser o turismo uma das opções estratégicas mais enfatizadas da economia portuguesa os sucessos de eficiência nesta área são à partida favoráveis ao país. Portugal tem a capacidade de organizar acontecimentos com qualidade e volume que demasiados países mais fortes não têm. Para isso contribuíram alguns desses investimentos que não escaparam à contestação, a versatilidade dos operadores e o espírito empreendedor de portugueses notáveis.
É obviamente relevante para Portugal que um dos seus cidadãos ocupe de novo o cargo de presidente da Comissão Europeia, ainda que com alguns custos sociais legítimos iniciais. A importância pode não residir em exclusivo no facto em si mas numa convergência de razões em que o prestígio é o factor comum.
Jean Monnet, o homem que durante toda a primeira metade do século XX, sem esmorecimento, impulsionou grande parte dos mecanismos de relação inter países, de defesa face à opressão e de solidariedade dos possuintes para com aqueles que mais precisam, até à génese da actual estrutura económica e política pan-europeia, refere nas suas Memórias que «a única catástrofe é o abandono de si mesmo». Um desprendimento que para Portugal bem poderia tomar a forma dum infeliz regresso à auto-condescendência.
Que bom seria se esta fabulosa mutação simbólica em relação à imagem colectiva dos portugueses – e pena é que só o futebol o tenha proporcionado – pudesse indiciar o ocaso do discurso de comiseração sobre si próprios!
Mas vinte dias não bastam. Não se pode passar ao lado da experiência. E esta mostra que os homens só aceitam a mudança quando a necessidade os empurra. Mas só reconhecem a necessidade quando há crise. É pois crucial que, dentro da ética, sem messianismos, a democracia tenha as virtualidades de proporcionar o emergir de líderes e políticas com a ambição e os dons da mudança. Homens e Mulheres sensíveis a que os estímulos positivos, motivadores, capazes de mobilizarem os portugueses para um estádio económico e social mais elevado da democracia, se sobreponham por muito tempo às paixões da divisão espúria, do gasto demagógico e do mando inconsequente.
Este caminho terá escolhos. Mas talvez não tantos como os necessários para suster os apetites aos clones de Häider, Perón, Berlusconi, Mugabe....e tutti quanti.

Hpinto

In Jornal Região de Leiria

FOTO: Jean Monnet

A «CRISE» NUNCA EXISTIU!


Praticamente todo o leque político ironizou com o anúncio inicial do Programa Eleitoral do PSD feito pela sua líder, como cabendo numa página A4. Achei precipitação. A inteligência e o bom senso do Professor Mota Pinto, filho do falecido primeiro ministro do Bloco Central, indigitado responsável pela feitura do texto, fariam esperar o emergir de coisa mais consistente e credível.
Ora o anunciado a 27 de Agosto é de facto o minimalismo antes alvitrado, polvilhado de cinismo eleitoralista quanto baste para, dirigido a um país bombardeado com o atribuir ao governo a suposta debacle que no plano da verdade todos deviam em princípio assumir, pois ninguém desejou a crispação da economia mundial. Pior ainda, a avaliar pelo não rigor das propostas ora vistas, o mau momento planetário nunca existiu, tal o carácter liberal das mesmas. E se antes se falava de promessas não cumpridas – como se pudéssemos frear a água do rio em época de cheia –, agora promete-se toscamente tudo, contrapondo o fácil a cada passo árduo dado até aqui, a acenar com iguarias a todos os sectores sociais agitados com a carência de «medidas correctas» alardeada. Confesso que senti uma enorme frustação ao constatá-lo. Deita por terra todas as esperanças de à saída da depressão se encontrar algo mais sólido.
Infelizmente, o debate político não se faz de argumentação histórica e social, de base científica, antes se estrutura no contrapor aos que se opõem um arrazoado de postulados, o chamado argumentário, denegrindo todo o caminho por estes percorrido. É a linguagem das entrevistas dos responsáveis em cada caso, a dos sítios e blogues oficiais dos partidos. Mas é também a algaraviada irredutível dos fanáticos do futebol, «foi, não foi falta!». A uns só interessa levar ao chão os oponentes, a outros só importa ter mais razão.
A este nível básico de propósitos, maquilhado o rosto da líder a quem se aconselhou sorrir – todos agem mais ou menos assim, lembremo-nos das melenas grisalhas de Felipe Gonzalez –, o dito programa, no apagar-lhe o tique conservador e dotando-a dos poderes soberanos de Merlin, o mago do Rei Artur segundo a lenda, até poderá ser inteligente.

Hpinto
Agosto 09


FOTO: Manuela Ferreira Leite

PEQUENAS E GRANDES FRAQUEZAS


Acabara de ouvir o orador Mikhail Gorbachev aplaudido pela classe média americana, europeia e asiática.
Mário serviu-se do seu estatuto para deixar o auditório através dos bastidores de palco. E ei-lo ali erecto, esperando só, aquele que anos antes fora «o homem do século», Prémio Nobel da Paz. Num instante ficaram os melhores amigos.
Por isso mesmo, agora que seguia o destino turístico de milhares de portugueses que demandam as estâncias de esqui, aprazou visitá-lo na Rue de Florissant na Fundação a que preside, a Green Cross International, a dois passos do centro de Genebra.
Evocam uma vez mais a tríade de problemas major que aponta ao mundo. Por eles, tal como o seu vice-presidente Alexander Lichotal, corre seca e meca buscando fundos, juntando apoios. A ignorância, a pobreza e a degradação ambiental são os estigmas dos nossos dias que tem como os mais sérios dos obstáculos à paz.
Esquecidas por instantes as pistas de esqui com o cortejo sui generis de pequenas fraquezas – a exibição chique ou a gabarolice das proezas de cada um nas vermelhas e negras –, e uma paisagem singular de verdes, branco imenso e cobreados, fascinante e calma, Mário visita o avesso do mundo, o das insuficiências da própria economia como disciplina.
A economia tende a considerar-se a si mesma como ciência social sem nunca ter tido em conta a dimensão social da família e as suas relações, tanto ao nível do lar como na dimensão macro económica.
Também o trabalho assalariado foi interminavelmente considerado a única fonte de emprego. O trabalho independente era explicado apenas como sintoma de uma economia pobre.
Todavia, nos tempos que aí vêm, este terá uma franca perspectiva de sustentabilidade colectiva. A exemplo dos investimentos do terceiro sector, o da economia das organizações sociais de que só muito recentemente se começou a falar.
É assim que o micro crédito, solução preconizada por Muhammad Yunnus, tido como o «banqueiro dos pobres», cresce como um dos eixos de intervenção do terceiro sector no atalhar da pobreza, financiando a longo prazo o trabalho independente de pequena dimensão.
Uma grande instituição bancária portuguesa adaptou já esta premissa, ainda que em valores globais inferiores a 2,5 milhões de Euros por ano, um pouco como decalque da expansão do modelo em África, nos EUA e no Japão.
Bill Gates está verdadeiramente obcecado em, através da Fundação a que preside, a «Bill and Melinda Gates Foundation», minorar alguns dos grandes problemas da humanidade, da saúde à pobreza. Acabou de constituir há dias um banco à semelhança do de Yunnus.
E Mário interioriza «se assim é porquê tantos rodeios?» Há saídas expeditas e fáceis capazes de mudarem o curso da vida humana. E no entanto uma economia sem lideranças credíveis, um mal comum à grande política, continua a abster-se de encarar o universo da família com os olhos vidrados na poupança e na produtividade de amplo espectro.

Henrique Pinto
In Até o Diabo Tem as Malas Feitas, edição MinervaCoimbra

FOTO: Bill Gates

A LARANJA MECÂNICA


Dentro de poucos anos a população do mundo viverá sobremaneira na cidade. O campo, visão bucólica de Júlio Diniz ou Malhoa, já não será o refúgio para os jovens susceptíveis de serem corrompidos pela urbe, como defenderia Rousseau no seu Contrato social. A cidade, universo que nasceu na Suméria há pouco menos de dez mil anos, uma gota no oceano do tempo cósmico, com tantos contratempos e não menos entusiasmos que o declínio ou a euforia civilizacionais lhe introduziram, será o pote dum caldo de cultura cada vez mais complexo e rico.
Falar de cidade é ter em conta as pessoas, a convivência, o ser mais ou menos interiorizado o sentido de vizinhança.
O europeu comum como o sul-americano, ainda que cada vez mais perfumados no seu dia a dia pelos eflúvios das culturas americanas, olha de esguelha também com mais frequência o americano comum. Todavia, com uma história breve em demasia enquanto país, de contrastes de toda a ordem, provavelmente com as taxas mais incríveis de deserdados da sorte e milhões de pessoas que passam fome, dum calvinismo e individualismo sonantes, o cidadão americano tem ainda assim um sentido de comunidade, de vizinhança, de pertença, como de forma alguma tem quem dele mais desdenha.
No estudo que Roberto Carneiro dirige desde 1998 a perspectivar um modelo de educação para Portugal com a meta em 2020, para lograr resultados tangíveis, a ideia de cidade, de comunidade, está presa pelo cordão ao rumo a tomar, ao modelo económico e político que lhe subjaz.
O futuro tenebroso, violento e monótono de A Laranja Mecânica, o filme de Kubrik que é um ícone da minha geração, e que eu vi em Roma quando ainda não fruíamos a liberdade de o apreciar, pode configurar o ensino que vivemos com os nossos filhos, útero fecundo de desempregados, de pessoas sem perspectivas, feito à medida do taylorismo industrial decadente, e contunde com um mundo onde a inovação induz competitividade e riqueza.
Se queremos chegar a 2020 a ombrear com os que mais apostam na formação dos seus cidadãos de todas as gerações, a Dinamarca, a Finlândia e a Holanda – porque eles não esperam por nós está-nos por igual condenado parar para aprender –, é curial que esta geração de poder tenha em conta a pressa de romper com o passadismo educativo, com o tom obsoleto de fazer política.
Um propósito assim implica adestrar mais de cinco milhões de cidadãos com competências para saber fazer e fazer sabendo. É uma outra formação, que não nivela, atenta às diferenças e ao mobilizar capacidades diversas. Todos nascemos com um potencial ganhador de aptidões que nos habituámos a deixar esvair-se.

Henrique Pinto
In Até o Diabo Tem as Malas Feitas, edição MinervaCoimbra

Foto: Roberto Carneiro

GENTE CÍNICA


Quando se ouvem referências a um filantropo considerável o mais certo é alguém adiantar que o indivíduo consegue bons ganhos materiais nessa prática. Este descrédito em relação às boas intenções alheias tem raízes populares, quais marcas seculares obscurantistas, uma alfabetização tardia, a iliteracia a rondar os mais de cinquenta por cento ou a desconfiança eminentemente latina.
Os mais demagogos ao tipificarem determinadas votações usam estes dados sociais conforme lhes convém. Evoca-se desde a sabedoria popular – embora seja verdade que os grandes números esbatem e adoçam a importância dos fenómenos de confundimento –, até à alusão de a mensagem não passar.
Há ironia no olhar o processo administrativo fundamental da regionalização. Anos atrás não passou em referendo e agora é pacificamente aceite. (…) Assim germina a crendice.
Nos tempos chegados as maiores fraudes nas empresas americanas e europeias foram trabalhadas por uma legião de licenciados das melhores universidades. Amaral Dias contrapunha há dias que o dinheiro substituiu a ética. Custa-me a dar-lhe inteira razão.
Não tendo o país qualquer solução boa ou melhor de curto e médio prazo para os resíduos industriais perigosos, deu cabo da incineração nas fábricas de cimento, apesar desta não ter praticamente quaisquer efeitos deletérios. E hoje, desde há seis anos, sem ruído, está a fazer a queima das farinhas resultantes do abate das vacas loucas e outros produtos exactamente nessas empresas.
A confiança é um valor mais palpável em sociedades desenvolvidas e tranquilas. Atitudes como estas miná-las-iam. Como o grosso da hipertrofia da desgraça influi sobre as nossas comunidades.
Se o país soergue a cabeça com iniciativas modelo a emergirem de cidadãos organizados logo outros as olham de través. As universidades seniores e as academias que evoluem por todo o lado, são caminho de ouro de travão à ignorância, provado o efeito no prolongar a capacidade intelectual no avanço da idade, e na longevidade mais segura. As instituições e as pessoas que equiparam ginásios em lares de idosos e schnootzers nos centros de paralisia cerebral – aliás, das iniciativas mais nobres que cresceram fora do Estado –, estão a melhorar a uma escala muito sensível a qualidade de vida de quem usufrui destes recursos.
Porém, como se a solidariedade fosse um fait divers entre gente cínica, ocupada com Obras mais válidas, nem são referência usual na opinião difundida.

Henrique Pinto
In Até o Diabo Tem as Malas Feitas, edição MinervaCoimbra

FOTO: Professor Carlos Amaral Dias

SÁBIOS POR ENCOMENDA


A depauperização intelectual traduzida em notícias de faca e alguidar e telenovelas de manhã à noite vai ao encontro duma camada de cidadãos com gradientes diversos de analfabetismo cultural. E vende bem. O mesmo se aplica ao pessimismo enlatado dum suposto mundo bipolar, característico de certa comunicação de classe média, que chega a colocar os portugueses no patamar térreo de todas as desgraças. O analfabetismo cívico e político é transversal nas nossas como noutras comunidades. E o princípio é o mesmo. Vende bem.
Um grupo de cidadãos ilustres e menos ilustres apresentou há algum tempo a descoberta «milagrosa» para pôr cobro às elevadas taxas de tuberculose e SIDA que prevalecem entre nós. Alguns deles provavelmente já terão criticado Fidel de Castro pela violência do encarceramento deste tipo de doentes e até dos homossexuais, em redomas especiais perto da Baía dos Porcos. Mas a solução que apontam é, pasme-se, exactamente a mesma, o internamento compulsivo.
Como se não fossem suficientes os factos de 90% dos reclusos das nossas cadeias serem doentes toxicodependentes – e por vezes nem haver lugar para os criminosos julgados –, e pulularem clínicas para tratamento daqueles casos que são sorvedouros do orçamento das famílias e do Estado.
Logo outras vozes comentam piamente que o mal está na indigência extrema de muita gente. Já só falta argumentar que em Portugal se copula mais que em outras paragens, reinventando-se o falso mito do macho latino como explicação para a alta incidência de doenças com afinidade aos comportamentos sexuais.
Não basta pois reclamar que há uma interdependência forte entre tuberculose, SIDA e comportamentos aditivos.
Infelizmente há uma incúria imensa e de longa duração responsável por isto, que atenta no analfabetismo científico – designadamente no que deveria ser efectivamente saúde pública – por banda da elite que tem superintendido nas políticas de saúde nas últimas décadas. E que abrange também os núcleos férreos do corporativismo profissional.
Nos anos 90 e 91 os americanos deitaram abaixo hospitais onde tinham sido internados este tipo de pacientes. Não estavam preparados para casos onde se potencia a resistência medicamentosa. A circunstância de os terem recebido, aumentando as mortes por tuberculose multiresistente dos imunodependentes, incapacitou-os definitivamente. Nós também não temos, nem hospitais adequados nem cultura de saúde, para o suportar.
Há muito que os países que melhor cuidam deste problema privilegiaram a alfabetização sexual e sanitária. Estes doentes carecem de companhia presencial em todas as tomas do cocktail medicamentoso. O que se pode fazer com um suporte social consistente. Tal como os dependentes de drogas ao deixarem os estabelecimentos de tratamento. Eis apenas dois exemplos práticos duma política social ligada à saúde que em termos gerais não existe. E que, de tanto se valorizar o desequilíbrio orçamental e as listas de espera, provavelmente não existirá tão cedo.

Henrique Pinto
Adaptado de Até o Diabo Tem as Malas Feitas, edição MinervaCoimbra

FOTO: Dra.Margaret Chan, Directora-Geral da OMS

MISÉRIA FRANCISCANA


Nos anos sessenta o livrinho Sete Palmos de Terra e um Caixão, de Gilberto Freire, denuncia que nos Estados Unidos trinta milhões de pessoas se deitam todos os dias sem terem com que jantar. Números recentes atestam volume idêntico de pobres no país mais possidente da terra, com oscilações consoante as políticas mais ou menos viradas para a atenção social.
Numa das melhores investigações de carácter sociológico publicadas na imprensa portuguesa ainda recentemente deu-se conta duma realidade pungente. Um quinto da nossa população está num patamar de pobreza constrangedor. Pelo menos 200000 pessoas passariam fome não fora o zelo das cerca de 900 instituições solidárias que lha mitigam.
Sabe-se que a pobreza existe em quase todos os tipos de economias. Mesmo assim, a divulgação deste estudo numa publicação de larga referência é caso muito raro e por isso mesmo francamente de louvar.
Saudável é ainda ter-se a noção dos níveis de solidariedade que aliviam o sofrimento, entre nós como à escala mais ampla.
Muitas vezes se ouve que a distribuição dos excedentes sumptuários acabaria com a fome em África e noutras zonas problemáticas. O que é pouco crível. Condições de esperança, confiança e conhecimento indispensáveis para as pessoas porem em marcha economias de subsistência, hoje tolhidas pelo medo, pela ignorância e pela destruição dos suportes sociais, praticamente não existem.
Em países como o nosso, num padrão económico superior se bem que sem uma orientação estratégica assumida, onde os problemas de conjuntura conduzem de pronto ao desemprego irreversível, longe de se atingirem os limiares mínimos da acção social ou da saúde pública – vejam-se as estatísticas da tuberculose ou da SIDA –, um tal grau de pobreza deveria suscitar um olhar vasto, diferente, consensual.
Na sociedade da informação é justo tomar-se a postura de alguns dos seus instrumentos por excelência como modelos duma ou doutra corrente dos pensamentos dominantes.
Ao eleger-se a mentira dos políticos como o elemento decisivo aparentemente inesperado dum pleito eleitoral, pesem os muitos, diversos, reiterados e perduráveis indícios de indignação, de proporções não comuns, não se está a dizer a verdade toda. Navega-se no «politicamente correcto» pouco incómodo. O facto em si é verdadeiro mas insuficiente como explicação exigente.
Mas será que não se mente ao fazer-se o caminho a ideários pouco ajustados ao interesse nacional, firmados na suposta inevitabilidade da «Ibéria económica», por exemplo? As regras da economia que permitiram à Espanha passar da miséria franciscana a grande potência nos últimos trinta anos, embora à beira da implosão regional, não são válidas no Portugal de hoje, por mais fortes que sejam os efeitos da depressão mundial?
A diferença entre os dois posicionamentos não tem, infelizmente, qualquer significado político de fundo. Daí a certeza perturbante, também não nos levam a qualquer porto seguro.

Henrique Pinto
In Até o Diabo Tem as Malas Feitas, edição MinervaCoimbra

FOTO: Alfredo Bruto da Costa, presidente da CNJP, Comissão Nacional Justiça e Paz, autor do estudo citado

INTELIGÊNCIA PERVERSA


O director provincial de saúde está a substituir o jovem director clínico do Hospital do Dundo, que vi sorridente e com bom aspecto mas que no dia seguinte já estava em Luanda e nunca mais apareceu. Estava doente ao que se diz. E não é por não cuidar da sua saúde porque ainda uns dias atrás deixou o motor do carro oficial a trabalhar durante três horas para o manter fresco pelo ar condicionado.
Então o director com uma voz cava e doce, tranquila, falava com lassidão para os médicos, hirsutos em tensa postura respeitosa sentados à volta da mesa da biblioteca, e para os «enfermeiros» empoleirados nos móveis em redor, olhos esbugalhados, quiçá pelo álcool e pela ignorância, bocejos longos, ostensivos. «Olhe que se o doente fez coma tem de lhe mandar fazer uma punção lombar». E alongava as explicações na mesma pose pedagógica e tom de voz de perseverante mansidão. Mas a abulia dos circunstantes intrigou-me até perceber que nenhum dos clínicos, vietnamitas e norte coreanos, percebera uma singela palavrinha. Mais, não só desconhecem a língua – encontrei excepções – como nunca estudaram nem sabem diagnosticar a patologia tropical com que têm de lidar. São um perigo público.
Ouvi mesmo a este doutor «calado, esse é diagnóstico de privado, é só para chatear, nada de notificar». Dirigia-se a um seu colaborador. As suspeitas tanto podem ser febre-amarela ou hemorrágica como poliomielite...
Esta farsa, o ar de faz-de-conta, é apenas raramente interrompido em clusters de interesse porventura genuíno e altruísta a que me referirei noutro local. Um conhecido escritor angolano não situacionista respondia noutro dia a uma entrevistadora insonsa da Antena 1 em Portugal, «Mais corrupção em Angola que noutro local?...pura mistificação, por acaso conhece a África?». E o pugilista angolano campeão de África no Togo não recebeu o prémio de 10000 dólares porque não estava incluído no ranking dos dez melhores do continente. «Coisas de África!», ouve-se nos noticiários.
Já vi este filme do faz-de-conta noutras latitudes. Em regra é muito útil para quem manda, pelo menos para um certo tipo de dirigentes.
Num país que procura emergir com algum crédito na comunidade internacional, vencida até certo ponto a fase eminentemente bélica, guerra civil fratricida de efeitos nunca comparáveis a um colonialismo que praticamente em pouco terá sido uma verdadeira instituição, esta fase de transição – tanto mais quanto a formação dos recursos humanos é quase ficção – é francamente dura de ultrapassar. Dificuldade que cresce num clima de regionalização típica do desenvolvimento, mas que quebrou os laços da ligação vertical, mesmo ao nível técnico, e onde será árduo repor ou instalar alguma consistência e coerência, uma supervisão com capacidade negocial dissuasora.
Não é custoso apercebermo-nos que sem o estímulo financeiro e técnico que veio de fora (…), entrou muito dinheiro no país, das Nações Unidas através da OMS e da UNICEF, do CDC dos Estados Unidos, e pouco se teria estruturado no âmbito da vigilância epidemiológica, do combate à doença, da organização mínima de serviços. Não se teria ido tão longe. Bem ou mal estimulou-se uma política de incentivos, quase de subsídio à peça para determinado tipo de funcionários provinciais, que funcionou melhor ou pior enquanto houve dinheiro. Quando a própria OMS começa a atrasar os ordenados aos seus colaboradores nas províncias, são eles mesmos, coitados, que pagam o gasóleo e os pneus enquanto o dinheiro não chega ao banco, e depois nunca mais há acerto de contas, pouco mais há a esperar deste tipo de estruturação.
Entre os funcionários internacionais há de tudo. Desde os que de alma e coração querem participar numa vitória histórica sobre a doença, quais soldados da Humanidade, aos idealistas de todas as utopias da esquerda estalinista que se foram acomodando e subsistindo. Pelo meio há um rol extenso de mestres e doutores jovens, saídos das melhores universidades do mundo, mas em que alguns estão contratados em regime de per diem, um estado que não se importam de prolongar porque não há emprego nos seus países, e por isso poupam na comida e se submetem, escrevem relatórios conformistas com críticas domesticadas. É com certeza o mais moderno dos sistemas de exploração da inteligência. Mas há também aqueles pavões que vêm da OMS/AFRO de Brazzaville ou Harare, e deixam meio mundo assustado com a sua supervisão. É gente sequiosa do luxo e mordomias. Fazem-me lembrar uma história que me contou o bispo D. Manuel Martins sobre certos cardeais africanos quando vão ao Vaticano e mal saem correm às ourivesarias de Roma a comprarem belos anéis, cachuchos para ostentação de poder.
Neste lastro houve oportunidade para que algum mercenarismo tecnicamente qualificado e com artes de ganhar ascendente sobre os demais hoje mais não queira que somar argumentos e peças de currículo para dar o salto para outro grau ou outra latitude das organizações. É aqui que se o lugar e os contactos lho permitem se criam as mistificações. Um sistema de vigilância epidemiológica é essencial ao país. Mas se o terreno não lhe é favorável e eventualmente seja comprometedor perante a estrutura dirigente do país criar complicações falando dos problemas, então constroem-se instrumentos de estudo que nada acrescentam ao país real mas que servem como elemento de promoção, sobretudo quando se pode utilizar alguma inteligentzia respeitada como seguro de credibilidade.
Esta sofisticação do faz-de-conta não se limita a semelhante tipo de personagens. Ninguém acredita nas intenções desinteressadas de muitas das ONGs que actuam na área social. Mas não só...
O DC9 da Air Gemini estava cheio, muitos passageiros eram crianças, mais que muitos eram russos com ar de personagens dos Sopranos, que, ao que parece, controlam as explorações diamantíferas nacionais. A dada altura as hospedeiras iniciam um puzzle complicado, mudam passageiros daqui para ali, as crianças passam para o colo das mães, mesmo duas por vezes, com uma passividade notória e o arranjo inicial muda por completo. Ouve-se alguém que pergunta se «as crianças não pagam?», «não senhor, pagam, mas eles metem mais passageiro». Mas são companhias como esta que estão certificadas pelos oficiais da segurança das Nações Unidas localmente, para transporte dos colaboradores da organização. Os voos internos da TAAG, por exemplo, não o estão.
São minudências normais de qualquer momento fulcral de mudanças com esta dimensão e que o tempo esbaterá. Todavia, há muito boa alma que fará julgamentos do género «por isso mesmo não dou nada para essa gente». É fraco o expediente para alívio de qualquer consciência. O sanguinário Pôncio Pilatos, procurador romano na Judeia, decidida por outrem a condenação de Jesus lavou as mãos num distanciamento cínico. «Liderança e aprendizagem são indispensáveis uma à outra», acentuava John Kennedy. A cooperação internacional enformada neste princípio é um desígnio humanitário de excelência. Para afinar os instrumentos do diálogo. Mais para não se quedar indiferente perante a injustiça e menos no receio de se tornar avalista ingénuo dos seus perpetradores. Só ajuda quem quer, às vezes mesmo não podendo. Ajuda quem até sem o saber contribui com a última gota que enche o oceano.

Henrique Pinto
In Até o Diabo Tem as Malas Feitas, edição MinervaCoimbra

terça-feira, 25 de agosto de 2009

SANTANA E COSTA


Diz-se «enganaste-me bem!» quando beltrano não corresponde às expectativas do observador. Acontece também após um pleito eleitoral. Perguntar-se-á, então o povo, o grupo, pode votar mal, tantas as opiniões coincidindo sobre alguém!? Se discordássemos estaríamos a negar a capacidade crítica individual ou o conhecimento mais apurado de certas minorias. É legítimo opinar: ser soberano no voto e dirigi-lo aos mais capazes não é exactamente a mesma coisa. E ter essa percepção não faz de alguém antidemocrático.
Pedro Santana Lopes e António Luís Costa são candidatos a liderarem a Câmara de Lisboa. Ambos foram a referendo nas urnas, bastas vezes. Boas pessoas são-no com certeza. Mas isso faz de ambos presidentes igualmente capazes? O seu curriculum nem é substantivamente diferente, tomando em conta câmaras municipais, Assembleia da República, cargo de secretários de Estado ou Parlamento Europeu. O primeiro esteve à frente de duas câmaras e foi primeiro-ministro, legitimamente, o segundo abraçou quatro pastas ministeriais em três governos por mais de dez anos.
Santana Lopes teve este trajecto, quase se pode dizê-lo, porque lutou muito por consegui-lo, impôs-se com coragem, nem sempre foi propriamente uma escolha ou opção fácil dos seus pares. A um tempo, a inveja do seu bom aspecto, mulherengo, ar de jet set, mas ainda feitio truculento, instabilidade na argumentação, excessivo liberalismo, tornavam-no incómodo.
António Costa, pelo contrário, sempre gozou da confiança da generalidade dos seus pares, discreto, não contestado na sua competência (talvez tenha sido o único ministro da administração interna com mandato tranquilo), unanimemente apontado pelos fazedores de opinião para funções da maior responsabilidade.
Quando se olham os resultados conseguidos as diferenças acentuam-se um tanto mais.
Em qualquer dos lugares Santana Lopes teve alguém a apanhar-lhe as dores e a secundá-lo, com lealdade, permitindo-lhe libertar-se das «coisas pesadas» e deixar-lhe tempo para uma vida mais exposta publicamente, como gosta. Sempre adorou obras faraónicas, mesmo se a contestação quanto à pertinência do túnel do Marquez tenha sido algo injusta. Tão pouco é imperioso ver-lhe as contas. Afligia o lamento de quantos lhe seguiram, sobretudo em privado, aterrados com a herança, as dívidas mais que muitas e gordas, as perspectivas de as pagar a não sobrarem. Depois, no exercício de chefe de governo, muito pouco pacífico, deu mostras de franca incomodidade, aqui ou ali a tocar o trágico e o hilariante.
A António Costa não se lhe pode apontar o carácter volúvel ou menor habilidade no dirimir das suas responsabilidades. Tem credibilidade no que faz, formiguinha a amealhar, controlo sobre as despesas, evitar passivos e prevenir futuro, sem exuberância pública, com maior empenho a proporcionar saber e bem-estar dos cidadãos. Na Câmara de Lisboa não tem tido a vida fácil, a assembleia municipal é-lhe politicamente adversa, condiciona-o, o Porto de Lisboa é ainda Estado dentro do Estado, tem de ter uma atitude equilibrada, sensata, perante o governo, o do seu partido, gritando aqui, calando acolá, e bem se sabe quantas vezes os interesses de autarquias e governo se opõem, sobretudo na capital. Dedica-se de corpo inteiro ao trabalho.
O ter uma boa relação com os dois não me impede de ter sentimento bem diferente quanto a quem tem condições de ser um melhor presidente.

Hpinto
Agosto 09