sábado, 28 de janeiro de 2012

A CATÁSTROFE HUMANA NA SAÚDE

«Os casos de infecção hospitalar atingem um décimo dos internados», publicou-se há dias como versão oficial. Há gente no governo capaz de entender a gravidade desta situação e de, mau grado a carestia, fazer alguma coisa.
Claro que não é um fenómeno tipicamente português mas também não pode ser verdade que «com o mal dos outros» possamos nós bem.
Vejamos, num artigo do British Medical Journey 2011 escrevia-se que «os médicos alemães cometem muitos erros de prescrição». Ora este problema também é transversal.
Somemos os mortos por uma e outra causas e talvez possamos perceber a catástrofe resultante da ineficiência humana na saúde.
Henrique Pinto
Janeiro 2012
FOTO: Cirque du Soleil em Alegria, Lisboa 2011

É CHEGADO O MOMENTO DOS DOENTES

Fernando Leal da Costa, secretário de Estado adjunto do ministro da saúde, afirmou na conferência sobre «Fundamentos éticos nas prioridades em saúde» que «é preciso lembrar que as associações de doentes podem ser capturadas por interesses industriais». O presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Miguel Oliveira da Silva, defendeu que «Portugal deve deixar de respeitar as patentes da indústria farmacêutica caso a falta de dinheiro comprometa o tratamento dos doentes e salientou que subsistem muitos desperdícios no nosso SNS, exemplificando com a prescrição de mamografias desnecessárias ou exames complementares de diagnóstico repetidos», vendo «chegado o momento dos doentes».
Adalberto Campos Fernandes reiterou o termos que «ultrapassar a limitação de sermos avessos a avaliações».
In Ordem dos Médicos Dez. 2011

A TRIAGEM NAS URGÊNCIAS HOSPITALARES

A Triagem de Manchester, que desde há dez anos se vulgarizou nas nossas urgências hospitalares para domar a fera corporizada no boom da afluência às urgências, tem as suas ineficiências, a começar no número de horas de espera superior ao previsto e nos erros de avaliação, feita em regra por um profissional não médico.
O Dr. Caldeira Fradique, ex-director do Serviço de Urgência do Hospital São José em Lisboa, diz-nos da experiência que promoveu naquela instituição com um sistema de triagem de doentes original baseado numa avaliação clínica sumária, à chegada ao serviço, precedendo qualquer acto administrativo, de que resultou o retirar do balcão geral 42% dos doentes e, assim, encurtar em várias horas o tempo de atendimento para todos.
Aplaudo vivamente os resultados logrados pelo meu colega. Mas julgo que tal não lhe permite concluir que a inoperância das urgências seja maior nos países de regimes de saúde ditos beveridgianos (e lá vêm as conexões ao Estado Providência!) que nos de Seguro Social Obrigatório à maneira Bismarkiana.
Henrique Pinto
Janeiro 2012
FOTO: Caldeira Fradique

O ESTADO SOCIAL NÃO MORRERÁ MESMO QUE O MATEM!

O Estado Social não morrerá! Mesmo que o matem. De facto recorda-me o «no pasáran!», valor normativo que tenho como exemplo de convicção e que, neste nosso tempo, parece estar a ficar esquecido.
Dizem alguns que o Estado Social já morreu; outros afirmam que o Estado Social está ultrapassado pelo que morrerá em breve; e outros ainda, muitos ao que parece, dizem que o Estado Social não é viável porque não se adequa a esta fase do desenvolvimento colectivo. Pelo que ouvimos, pelo que lemos, podemos afirmar que são muitos os que se julgam acreditados para emitirem tais juízos.
Pergunto-me porquê?
Porque conhecem a História? Porque são Profetas? Porque são cientistas Sociais? E porque não por terem algum interesse em o afirmarem? Talvez por serem Sábios? Ou porque etc…
É minha convicção que o que se esconde por detrás deste catastrofismo é o desejo, ou a convicção da sua inevitabilidade, de aniquilar o que julgo ser a mais espantosa criação do Homem.
A única que lhe permite afirmar-se diferente dos outros animais.
M.M. Camilo Sequeira
Chefe de Serviço de Medicina Interna
In Ordem dos Médicos Dez. 2011

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

EM EVIDÊNCIA POR BOAS RAZÕES

Chega sempre a nossa hora. O José Ribeiro Vieira partiu, como se esperava. Militar de Abril, deixou marcas indeléveis por onde passou, em tudo onde mexeu, em todos com quem conviveu. Mal de quem nada se diz, daqueles certinhos, incontroversos! O José não era desses. Interventor social a variadíssimos níveis, político sem lugares, empresário de sucesso, dirigente do associativismo empresarial, agricultor com pergaminhos, livreiro, director e editor de jornal, homem culto, amigo do seu amigo, marcou o seu tempo à sua maneira. Tive o privilégio de me ter convidado para dirigir (graciosamente como todos os meus empenhos sociais e culturais) o relançado Jornal de Leiria. Entrei para Rotary quando ele presidia ao clube de Leiria pela mão doutro nosso grande amigo, o saudoso José Neto. Em sua casa das Cortes privei com muitos dos seus amigos e ganhei outros tantos, do general Eanes ao Eng. Narciso Mota por exemplo. Os seus familiares são meus bons amigos. Juntos apoiámos a candidatura da Dra. Isabel Damasceno à Câmara de Leiria. Um dueto do OLCA, Neuza Bettencourt e Ilda Coelho, tocou no seu funeral. A instituição recordará sempre o seu papel de mecenas da cultura, interessado. Foi, seguramente, das personalidades mais em evidência na região, por boas razões, nas últimas décadas.
Henrique Pinto
Janeiro 2012
FOTOS: José Ribeiro Vieira e as filhas; José Ribeiro Vieira

CONDIMENTOS DA FELICIDADE

O que não muda envelhece. O que envelhece quando é possível evitá-lo, morre depressa. Por isso mesmo, porque o rumo desejado é diametralmente oposto à acomodação, o Coro do Orfeão de Leiria tem agora um novo maestro. É necessário construir um coral adequado aos tempos, versátil, rejuvenescido sem cisões, parte da engrenagem institucional, entrosado e nutrido nos coros da casa, com um repertório e uma qualidade vocal que o singularizem na primeira divisão do universo coral. E que lhe possibilitem a competitividade nos grandes eventos nacionais e internacionais, de maior exigência, ágil a capella como nas formações de coro e orquestra. Não é tarefa fácil. Mas foi este o desafio lançado ao maestro João Branco.
O Maestro João Branco, de 33 anos, natural de Torres Novas, com o curso superior de violino do Conservatório Nacional e mestrando em direcção coral na Universidade Nova de Lisboa, licenciado em direito, novo director do Coro do Orfeão de Leiria e professor da EMOL, assume assim também a direcção do Coro de Câmara.
O canto coral sempre foi a grande paixão de João Baptista Branco. Colabora numa base regular (como maestro, cantor, director artístico ou júri) com instituições como o Orfeão de Leiria, Chorall Phydellius, Coro Polifónico de Almada, Coro Stella Vitae, Voces Caelestes, Fundação Calouste Gulbenkian, Officium, Coro de Santo Amaro de Oeiras, World Youth Choir e os festivais “Cantar Liberdade” e “Outonalidades”. Baseando sempre o seu trabalho na procura exaustiva da cultura do som, realizou mais de 1000 concertos em Portugal e no estrangeiro, contando várias gravações de CD`s e transmissões em directo ou diferido para a rádio e televisão.
É hoje cada vez mais frequente encontrarem-se grandes músicos profissionais entre médicos, advogados, grandes gestores e até políticos. O Estágio Internacional de Orquestra do OLCA é prova disso. Conheço várias destas pessoas pelo mundo fora. É um novo paradigma civilizacional.
O professor João Branco será pois, nos próximos anos, mais uma das vedetas artísticas e na pedagogia, na região, seguramente a deixar a sua marca indelével, a marcar o seu tempo. São condimentos assim – porque tal opção tem o meu empenho, obviamente – que me deixam mais feliz.
Henrique Pinto
Janeiro 2012
FOTOS: Maestro João Branco; Coros e Orquestra; Henrique Pinto; Coro de Câmara; Coro e Orquestra com Rodrigo Queirós



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Lista A apresenta-se ao sufrágio dos associados do OLCA essencialmente no sentido de assegurar a continuidade e constante melhoria dos serviços prestados, sem quebras no desempenho, e de continuar a fazer face, vencendo como até agora tem sucedido, às dificuldades de gestão provocadas pelo incumprimento do Estado, desde Janeiro 2011, das responsabilidades contratualmente assumidas.
E no entanto há uma renovação substantiva na composição do elenco directivo agora a sufrágio. Este propósito radica na necessidade institucional de rever as suas concepções em termos de: planeamento estratégico; diversificação do financiamento; fortalecimento da qualidade escolar e artística; redimensionamento institucional; melhor comunicação externa e interna; sistematização mais eficaz da imensa produção artística reforçando-lhe o impacto público; reforço da qualidade coral pela manutenção na primeira divisão dos corais portugueses, algo muito difícil nos dias de hoje, de molde a poder-se competir nos melhores concursos e eventos nacionais e internacionais.
E esta renovação, acompanhada duma baixa na idade dos directores, que abarca pessoas com experiência qualificada na gestão escolar (que tem uma componente financeira crescente), no planeamento, tendo em conta o aprimorar da gestão por objectivos, na gestão financeira, no financiamento através do mecenato e da produção de serviços (escolares, artísticos, culturais), na coordenação de actividades e pessoas, assegura ainda uma continuidade e transição qualificada na instituição, por decalque dos bons exemplos nesta área, nomeadamente o dás últimas décadas da Fundação Calouste Gulbenkian.
O OLCA é uma das instituições culturais mais prestigiadas do país e tem as escolas com um volume global de alunos e disciplinas mais amplo, desiderato só conseguido com uma incansável diplomacia da cultura, absolutamente transversal nas comunidades. Um estatuto que foi particularmente reforçado ou conseguido nas últimas três décadas por via dum empenho extraordinário e duma dedicação inexcedível dos seus dirigentes. Um ganho conseguido também pelo facto de as estruturas públicas e privadas da economia e da administração se reverem na Obra produzida no OLCA, pelo sentimento de que o prestígio do OLCA contribui para o prestígio de quem ali trabalha e aprende, do empenho generalizado para a reflexão sobre os caminhos da melhoria contínua, da dedicação e polivalência da maioria de quantos nele trabalham, bem como pelo bom ambiente geral.
O OLCA é uma Associação e não uma Fundação. No contexto actual tal dissemelhança é particularmente relevante. Por isso mesmo uma associação desta natureza carece ainda mais que quaisquer outras da atenção pública que os seus associados lhe manifestem, porquanto tem de dirimir milhentas questões, desde o financiamento à sobrevivência de algumas das suas componentes, num cenário nacional e internacional de pessimismo, próprio para gerar anticorpos à cultura. A melhor forma no momento dessa atenção dos associados produzir efeitos rápidos e pertinentes, é votarem nos seus Corpos Sociais, assim os motivando e mais os credibilizando para a tarefa muito árdua que ora se propõem enfrentar assumindo riscos.
Henrique Pinto
Janeiro 2012

FOTOS: Henrique Pinto; paisagens da Figueira da Foz; abertura solene do ano lectivo 2011-12; paisagem Figueira da Foz





sábado, 14 de janeiro de 2012

EDUARDO LOURENÇO E A GLOBALIZAÇÃO

«Quando nós imaginávamos que, justamente, graças à globalização, que é uma realidade, o Mundo estaria mais uniformizado, mais idêntico a si mesmo em termos de ordem da sua prática económica, de prática mediática, de prática social, do que nunca esteve, vemos ressurgir reivindicações de tipo arcaizante, expressões da consciência das diferenças, quer de ordem étnica, quer de ordem histórico-política. Como se os povos não quisessem perder-se numa espécie de magma indiferenciado, num mundo uniformizado, reivindicando, portanto identidades colectivas como o indivíduo reivindica a sua qualidade de indivíduo.
É claro que é muito difícil definir o que é identidade colectiva, quando identidade para um indivíduo é a definição de si mesmo. Aquilo que Espinosa chamava o cognatus, o desejo de ser e preservar naquilo que é. Por conseguinte, digamos que a defesa de identidade é natural, é o dado mais natural. E, por conseguinte, não há razão para supor que as defesas das identidades tivessem esse segundo aspecto de incompatibilidade, que além da manifestação da diferença existisse uma defesa dessa diferença e que essa diferença se pudesse converter, em agressão em relação àquilo que não é o nosso ou não é semelhante ao nosso».
Eduardo Lourenço
em Civilizações e Conflito de Identidades
2006
FOTOS: Eduardo Lourenço

PROJECTO ZERO-CINCO EM LEIRIA

O projecto Zero-Cinco do Orfeão de Leiria Conservatório de Artes, com mais de uma década de existência, foi pioneiro em Portugal no estabelecimento de um programa regular de

música para bebés e crianças até aos cinco anos de idade. «Desde o ano lectivo 2006/2007, utiliza uma abordagem metodológica assente numa perspectiva praxial da aprendizagem pela música. Proporciona a bebés e crianças até aos cinco anos, uma participação activa, estruturada e potenciadora de experiências criativas. A música é entendida neste projecto como catalisadora do desenvolvimento cerebral, emocional, social e artístico dos indivíduos.

A prática musical e a aprendizagem pela música constituem instrumentos indispensáveis para o desenvolvimento de competências chave para a vida em sociedade (Milhano, S., 2007).

Esta é uma área do impacto que a aprendizagem da música ocupa no desenvolvimento das sociedades contemporâneas, com uma profusão de estudos internacionais muito prolixa,

porventura desembocará num conhecimento profundo a breve prazo.

«Investigações científicas recentes no domínio da tecnologia médica, da neurociência e da educação produziram evidências significativas do seu valor extrínseco e da importância de

uma participação precoce» (Milhano, S., 2007).

Novos dados sobre o impacto que a música exerce no sucesso da vida dos cidadãos, na sua formação ao longo da vida, nas conexões entre a música e o desenvolvimento das

potencialidades do cérebro, no seu bem-estar, nas questões de desempenho e sucesso escolares, da integração, do pluralismo e da inclusão sociais, no desenvolvimento da criatividade, na transferência de capacidades, atitudes e conhecimentos, têm tido um efeito notável à escala mundial em decisões sobre prioridades educativas.
Bem-estar subjectivo tem sido relatado como uma medida composta de sentimentos independentes acerca duma variedade de preocupações de vida, além de sentimentos acerca da vida em termos positivos e negativos, isto é, bem-estar e mal-estar gerais. Sem surpreender, o bem-estar geral no seu afecto positivo e em menor grau o afecto negativo parecem ser estáveis no tempo numa extensão em que podem provavelmente ser chamados traços de personalidade (Pinto, H. 2002).

«As oportunidades de participação em actividades musicais para crianças, jovens, adultos e seniores têm-se repetido um pouco por todo o mundo, quer através da dinamização de actividades pontuais quer através do desenvolvimento de projectos com pressupostos diversos e dirigidos a cada faixa etária. Foram já amplamente divulgados os resultados de investigações que demonstram o maior grau de plasticidade do cérebro dos bebés e das crianças pequenas (Johnson, M. H. 2001; Katz, L. C. & Shatz, C. J. 1996) e que as oportunidades proporcionadas nestas idades facilitam um crescimento mais significativo do sistema

neurológico (Gruhn, W. 2002)» (Milhano, S. 2007).

Henrique Pinto

Outubro 2011

Imagens: Edwin Gordon; Bebés e a música;Vivaldianas


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

SOBRE O PRAZER ESTÉTICO NA MÚSÍCA

Música, canções e dança, são partes integrantes da vida humana. Quase todos os seres humanos (e talvez até alguns animais) têm preferências musicais particulares e procuram activamente por actividades musicais pelo seu poder de Induzirem experiências aprazíveis e compensadoras (Sachs, O. 2006).
As actividades musicais representam frequentemente (embora nem sempre) experiências estéticas, no sentido em que envolvem a avaliação dum evento musical de acordo com um valor positivo ou negativo (como a beleza, a harmonia, a elegância), comummente associada com uma emoção prazenteira ou não prazenteira (Leder et al 2004; Jacobsen, T. 2004/2006).
Como uma vez descrito por Oliver Sachs: «Todos nós tivemos a experiência de sermos transportados pela beleza diáfana da música, subitamente encontrando-nos nós próprios em lágrimas, sem sabermos se elas são de alegria ou tristeza, tendo a súbita percepção do sublime, ou uma grande tranquilidade dentro dela. Não sei como caracterizar estas emoções transcendentes, mas elas podem ainda ser evocadas, tanto quanto posso julgar, até nos doentes dementes profundos (e às vezes agitados ou atormentados» (Sachs, O. 2006). As frequentemente intensas respostas estéticas agradáveis à música reflectem-se nos sistemas nervosos central e autónomo dos ouvintes e podem então ser objectivamente medidas com o polígrafo, o electroencefalograma (EEG), tomografia de emissão de posição (TEP) ou imagens de ressonância magnética funcional (RMF). Contudo, sendo inegável a capacidade da música para mover e alavancar experiências afectivas, é menos compreendido o porquê de o fazer.
A evidência de suporte veio do achado em que a música diminui os níveis hormonais de stress sistémico e a indicação de medicamentos sedativos em doentes em estado crítico (Conrad et al, 2007).
Antes de se partir para uma revisão das várias propostas sobre as origens evolucionistas das experiências estéticas da música, quer-se fazer um curto delinear da noção de experiência estética.
Dum ponto de vista psicológico, a experiência estética ou apreciação é constituída por processos receptivos rápidos (e parcialmente inconscientes). Isto é, envolvendo os órgãos sensoriais e domínios gerais centrais e processos modais cruzados, isto é, baseados em representações mentais (dentro do córtex cerebral, independentemente de e à parte da contribuição dos órgãos cerebrais (Smith, C. 2005; Höfel, L. & Jacobsen, T. 2007). Entre os processos centrais, particularmente relevantes para a experiência estética estão o julgamento, contemplação, atenção, memória, referidos à avaliação subjectiva e auto-referencial duma entidade sensorial respeitante a conceitos como beleza, harmonia e elegância (Jacobsen, T. 2006; Jacobsen, T. et al, 2006).
Os seres humanos apreciam e avaliam esteticamente uma longa série de entidades musicais (Cross, I. 2003): lembrem-se os estados de transe de ouvir e dançar música tecno ou a concentração silenciosa durante um concerto de música clássica contemporânea ou o ritual de danças de ritmos complexos de tribos africanas (Brattico, E. et al, 2009).

O conceito das emoções descritas neste estudo é, na opinião do cientista António Damásio, médico neurologista, mais sobreponível aqui com os sentimentos. Diz ele que «as emoções e as várias reacções que as constituem fazem parte dos mecanismos básicos da regulação da vida. Os sentimentos também contribuem para a regulação da vida mas a um nível mais alto. As emoções e as reacções com ela relacionadas parecem preceder os sentimentos na história da vida e constituir o alicerce dos sentimentos. Os sentimentos, por outro lado, constituem o pano de fundo da mente» (Damásio, A. 2003).
Henrique Pinto
Outubro 2011
FOTOS: Henrique Pinto com Jordi Savall; Big Band Leiria; Barbara Friedhoff; Susana Milena; Glória, de António Vivaldi; André Ferreira; Miguel Sobral Cid e Henrique Pinto

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

TRINTA ANOS…

De um colaborador permanente para 76 trabalhadores remunerados em 2012 (com 150 no período das AEC) o salto foi grande nos recursos humanos. Mas em todo o período em apreço houve uma multifuncionalidade acentuada e um trabalho árduo onde sobreviveram os mais empenhados.A estrutura gerente assenta nos corpos sociais (direcção, Assembleia Geral e Conselho Fiscal e Consultivo) tendo uma direcção que reúne a dois tempos, a alargada e a reduzida, esta eminentemente executiva no quotidiano (o Board) com o papel dirigente máximo (não
profissionais), uma estrutura técnica a dois níveis, um não artístico (economia, dinamização cultural, marketing, informação e ensino, direito e Comunicação) e outro eminentemente artístico e pedagógico (maestros, directores pedagógicos e artísticos), com o suporte dum sector administrativo mínimo. 
Desde há vários anos estão perfeitamente definidos no OLCA, tanto a Missão institucional como os objectivos gerais e específicos, ano a ano, e as estratégias para lograr atingi-los (Pinto, H. 2010 c). Em 2011 realizou-se mesmo um seminário (em regime de retiro) para todos os dirigentes e quadros técnicos, tendo em vista a discussão e melhor aceitação, e ajuste, tanto à Missão, objectivos e estratégias, como à mudança sistemática necessária (Pinto, H. 2011).
A mudança na cultura organizacional, mesmo numa estrutura da cultura, é um trabalho difícil que tem de ser feito gradualmente através duma série de pequenos passos, cada um dos quais culminando no reconhecimento através da organização, de a mudança ter sido boa e aceite.

Nos dias de hoje não é mais possível a qualquer organização atingir os objectivos almejados sem um processo de liderança estratégica. Quando em boa articulação, a estratégia para produzir resultados e a liderança estratégica, devem estar aparelhadas a trabalharem em simultâneo, para que se desenvolvam novas capacidades para o futuro da organização (McGuire, J. B. 2003). São as lideranças que visionam a direcção futura, alinham os recursos e suscitam o compromisso das pessoas com o propósito comum. 

«E é preciso saber quando uma etapa chega ao fim… Se se insiste em permanecer num patamar mais do que o tempo necessário [perde-se], a alegria e o sentido das outras etapas que é preciso serem vividas. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa os nomes que se dão, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já acabaram» (Duarte Bello, M. 2011). Claro está que, se o sistema fordiano, assente na difusão normalizada de produtos em geral, deu lugar a uma economia da variedade e da reactividade em que, não apenas a qualidade mas também o tempo, a inovação e a renovação dos produtos se tornaram critérios de competitividade, esta sociedade do hiperconsumo afecta também a cultura e o ensino, com repercussões na sustentabilidade financeira, para o qual são precisos recursos intelectivos acrescidos para melhor gerir as máquinas culturais e do ensino (Lipovetsky, G. 2007). 
Porém, neste modelo organizativo como noutros, não é recomendável esquecerem-se alguns dos conselhos de Peter Druckner. «São muitos os líderes convencidos de que os seus actos, e as suas razões, devem ser óbvios para todos os membros da organização, mas nunca o são e são muitos os que, quando anunciam algo, todos o compreendem (…), os líderes eficientes têm de empregar uma pequena parte do seu tempo a fazer-se entender (…), um líder não deve ter medo dos recursos e talentos da sua organização» (Druckner, P.F. 1994). 

António José Laranjeira276, empresário da comunicação social, dá desta Obra o seu parecer: «O Orfeão de Leiria era, há apenas três décadas, um mero coral masculino, de razoável qualidade mas sem qualquer impacto social e cultural. Uma ambição quase demencial (na acepção de que era absolutamente imprevisível que, tendo em conta o ponto de partida, tivesse possibilidades de se tornar no que hoje), conjugada com capacidade de planeamento e de execução e a ausência de uma verdadeira política cultural por parte do Estado central e local, transformou o envelhecido coral numa Instituição Cultural de inegável peso social, que envolve duas disciplinas culturais (música e dança), uma escola que atinge cerca de 4.000 alunos, envolvendo cerca de uma centena de profissionais assalariados, com um orçamento de uma grande empresa e uma importância incontornável na oferta cultural do concelho de Leiria, da região e do País. Este percurso, desenvolvido em apenas trinta anos, deve-se à capacidade de sonhar dos seus dirigentes, que acreditaram ser possível construir uma Instituição de referência, mas também à receptividade dos públicos da região, que foram consumindo a oferta que, muitas vezes sozinho, o Orfeão de Leiria ia apresentando. Claro que o projecto beneficiou também de apoios oficiais, mas estes, mais do que concedidos, foram conquistados pela dinâmica da instituição, que foi fazendo o que era necessário fazer, correndo os seus dirigentes vários riscos pessoais, sustentados apenas pelo prazer de construir Obra».

É assim o Orfeão de Leiria Conservatório de Artes.

Henrique Pinto
Novembro 2011
FOTOS: Mário Laginha e Henrique Pinto; Ana Quintães; Moreira de Figueiredo e Manuel Ivo Cruz; Henrique Pinto com Beatriz Batarda, Bernardo Sassetti e Adelaide Pinho; Feliciano Barreiras Duarte, secretário de Estado, e Henrique Pinto, na Aberturado Ano Lecivo

MULHER DE LUGAR PÚBLICO

Do ponto de vista ideológico nada distingue PSD e PS. Talvez existam nuances nos objectivos, na objectividade e, sobretudo, nas pessoas. E como dizia o slogan da campanha de Clinton as pessoas estão em primeiro lugar. São elas que valorizo. Mesmo assim sempre que constituo um elenco executivo procuro estabelecer um equilíbrio de sensibilidades. Mas quantas vezes não me tenho eu enganado!
Um dos meus secretários internacionais, de África, o Walter, costumava dizer-me, «doutor, mulher de lugar público não presta». Exagero, com certeza. Mas quantas vezes há gente que se distingue publicamente em lugares vistosos onde pouco se faz e, se chamados à liça onde a responsabilidade aperta, têm medo e o que fazem pouco préstimo tem!? E raramente o admitem...
É um pouco como os políticos vindos de gabinetes tecnocratas, ou que aprenderam «umas coisas», seja lá o que for, e querem logo pô-las no terreno como reforma estrutural, a lembrar um tanto a «experiência» dos juízes de 23 anos para conhecer as pessoas, há umas décadas.
Quando estive no ministério muitas vezes nos recomendavam alguém para isto ou aquilo. Mal chegadas as pessoas, pouco importando o pensar político, desdobravam-se em sugestões colhidas na sua experiência de trabalho num dado contexto. Normalmente eram processos já mais que experimentados a nível central e sem sucesso.
Claro, se não atendidas, a tentação de muitas destas pessoas é o deita abaixo, «eles são bons, sim senhor, mas não são assim tão bons como isso…». É a chamada dor de cotovelo. Num certo sentido talvez o Walter tivesse razão, sei lá! Ao invés da natureza não é frequente que alguém seja num instante pôr-do-sol e lua cheia.
Henrique Pinto
Janeiro 2012
FOTOS: Henrique Pinto ao pôr-do-sol em Paredes; Paredes e a preservação da natureza; lua cheia em Paredes

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

«QUINÉ», UM HOMEM PARA TODAS AS ESTAÇÕES

«Era uma vez … nos tempos do primeiro Rei de Portugal, as hostes do rei Afonso,
vieram, em estugada marcha, do norte ao sul com o desejo de conquistar o Castelo de Leiria que aquele Rei havia edificado, anos antes, e os mouros tinham tomado depois da grande matança da gente portuguesa.
Quando todas as tropas estavam já prestes para a arrancada pousou um corvo, no alto de um pinheiro, que logo começou a agitar as asas com frenesim e a crocitar com alegria.
Tal facto muito contentou os guerreiros do Rei Afonso e mais os entusiasmou por verem nele um sinal de bom agoiro para a empresa que iam cometer: a conquista do Castelo de Leiria. Este acontecimento é hoje memoriado no brasão da cidade de Leiria, que mostra um corvo em cima dos dois pinheiros que ladeiam a sua torre central»

João Cabral
em A História do Teatro Amador em Leiria
1975


Esta lenda regional lembrada por João Cabral179 faz cogitar numa metáfora. Também  na heráldica imaginária das memórias a figura do encenador Joaquim Manuel de Oliveira, o “Quiné”, do seu percurso enquanto criador teatral e lutador político, bem como as performances do grupo de teatro que criou em 1972 no Orfeão de Leiria, o GTOL (muito embora convidado desde 1964 a constituir um grupo cénico, chegando a trazer o encenador Fernando Gusmão181 a conferenciar no edifício histórico da Rua Latino Coelho), o GTOL, que incluía gente nova e vários dos antigos amadores do teatro na casa, constitui uma ruptura epistemológica cultural, institucional e local, esse sinal de bom agoiro da lenda.
O escritor e encenador Luís Mourão recorda o contributo societário do Quiné em Leiria, enquanto actor e encenador (depois do OLCA esteve ainda no Ateneu Desportivo de Leiria, como antes passara por companhias amadoras e profissionais, também a fazer teatro), como marcante da simbologia do teatro nesta fase.
Diz ele com doçura: «A chegada, tranquila, de Quiné à cidade marca um momento decisivo de agregação e recuperação dos núcleos centrais da paupérrima vida cultural de Leiria de início dos anos 60. Do seu corpo, agigantado por uma imparável paixão pela arte de representar, retiram-se então inspirações criativas revigorantes no Teatro e no Cinema e uma geração em debandada – para, fosse onde fosse fora daqui – encontra, precariamente é verdade, boas razões para ficar mais um pouco. O seu contributo, colectivo, para a formação das sucessivas gerações de homens e mulheres culto e críticos, empenhados seriamente na transformação das misérias, do inevitável, é inestimável. É-lhes cada vez mais acessível, aqui mesmo, propostas de espectáculo mais abertas e interessantes, Sean O'Casey para além de Gil Vicente ou as comédias inteligentes de Eugène Labiche como exorcismo dos horrores de Armando Tavares. Se olharmos com atenção, na génese desta extraordinária transformação silenciosa encontramos, com certeza, a curiosidade insaciável e o vigor operário do Quiné. Um vigor e uma curiosidade criativa que ele soube manter intactos até ao fim. Tinha, temos todos – criativos, gestores, espectadores – uma ideia de Teatro. O Quiné
transportou a sua mesmo quando parecia natural abdicar dela. E eu, que penso Teatro de uma forma bem diversa, percebo-o muito bem. A questão central é, relativamente, simples: O Teatro, as artes cénicas ou performativas em abstracto, são tanto mais Arte quanto a sua capacidade de transformar o outro, de lhe permitir pensar um futuro mais interessante, uma nova realidade que corresponda como um mapa tatuado no corpo aos seus anseios.
Transformar o outro foi aquilo que, com uma singeleza fantástica, o Quiné soube fazer melhor. Transformar – entre a mais aguda crítica, o despertar dos mais radicais sentimentos de justiça, o encantamento e o desvario. Esta é uma história quase toda por escrever. Mas, é história de parte fundamental da vida cultural de Leiria».
Se desde os primeiros instantes outras práticas artísticas se desenvolveram no Orfeão de Leiria, em determinado momento houve necessidade de alargar ainda mais as actividades internas. O contexto político suscitado pela “Revolução dos Cravos” como ficou conhecido o movimento militar que depôs o ancien regime, com o fim da censura às influências culturais e teatrais susceptíveis de minarem o status político, o lançar de peças nunca representadas, o alargamento das temáticas, o teatro assume a função de «veicular uma mensagem crítica e socialmente empenhada (…), revoluciona o formalismo estético (Carvalho, C. 2004), e acompanha e protagoniza a ânsia generalizada de mudança propondo-se como agente social transformador.
É assim que o GTOL (Cabral, J. 1980; Pinto, H. 2010 b), levou à cena peças como: “Diário de Anne Frank” (os ensaios vêm desde antes da queda do regime) com um impacto enorme, os horrores da violência extrema sobre o Homem do tema, trabalhado na adaptação do texto pelo Quiné, reforçavam as convicções democráticas; “O Dispensário, história centrada no espaço gélido e austero de um dispensário médico da Irlanda do início do século XX, por onde desfilam aqueles para quem a vida mais não tem para oferecer que sofrimento, dor e morte; “O Pinto Calçudo”, quão bom é ter sempre qualquer coisa que nos defenda das dificuldades, que podem surgir, muitas vezes, quando menos se esperam, o problema das dificuldades do quotidiano; “Frei Bartolomeu dos Mártires” (obra que participou no I Encontro do Arquivo Histórico Dominicano, realizado no Mosteiro da Batalha em 1981, a convite desta entidade), da autoria do seu encenador, Joaquim Manuel de Oliveira “Quiné”, e posteriormente readaptada exactamente em 1983, tal como “A Viagem de Senhor Perichon”, de Labiche, comédia de costumes bem-humorada e contundente, entre outras. Em 1989 o Grupo de Teatro partiu para uma nova estética e estreou peças como Mário, Eu próprio, O Outro, de José Régio ou A Farsa de Mestre Pathelin, com a direcção artística de Luís Mourão.
Bartolomeu dos Mártires, mestre na escola dominicana do Mosteiro da Batalha, a sua doutrina deu brado, proclamar a liberdade congénita de todos os homens num mundo em guerra e no cume da escravatura, ou tomar as posições de vanguarda que assumiu como arcebispo de Braga (ele que se dizia Frei Ninguém) no Concílio de Trento183, é uma personagem singular, uma personalidade cativante e motivadora de atenção ao Outro (Oliveira “Quiné”, J. M. 1990).
Há pois no período imediatamente posterior a 25 de Abril, e particularmente em 1983 (ano do segundo resgate financeiro de Portugal pelo FMI184) e anos seguintes, a influência marcante no GTOL de Erwin Piscator185 (a acção teatral deveria instigar a mudança social), do teatro de Bertolt Brecht186, e do seu “distanciamento” de construção e representação (ele acreditava que o teatro poderia criar um clima intelectual propício à mudança social), fazendo sentido o Teatro Épico e Documental na vida quotidiana e em construções cénicas como Bartolomeu dos Mártires, ou ainda antes deste período, dum realismo de cores fortes,inconformista, de certo modo os resquícios do ideário social das luzes como também o dos séculos XIX e XX em Portugal, o neo-realismo, a esperança na “construção” dum homem mais digno e feliz (que vem desde o pós guerra de 1945 no século que passou).
O grande exemplo do naturalismo de Stanislavsky (antes do seu encontro com Anton Tchekov, que o faz acrescer-lhe, mesmo se com outro fim, a revelação psicológica da personagem, o realismo psicológico), presente na encenação de Na dne (No fundo) de Gorki, «onde aquela vida miudinha que nos outros espectáculos servira apenas de pano de fundo ao drama dos protagonistas, passava para primeiro plano: cada fala nascia no e do contexto de uma pequena acção quotidiana – jogar às cartas, cozer, cozinhar – em que se consumava a vida dos miseráveis retratados por Gorki (…)», (Molinari, C. 2010), está presente em boa parte dos trabalhos de “Quiné” anteriores a Bartolomeu dos Mártires. Mesmo se na cidade de Leiria chegou a existir gente a trabalhar na esteira de Stanislavsky, mas a um nível mais rebuscado.
Qual o significado propriamente dito que estes espectáculos [os de Piscator] podiam ter, em que o espectador devia sentir-se fatalmente esmagado por eventos maiores do que ele e condicionado por muitas evocações (…), por um determinismo férreo, é difícil de dizer. Contudo, tinham obviamente um grande valor no plano cognitivo (…), bem como no plano da tomada de consciência, na medida em que Piscator era genial ao encenar com extrema clareza o gigantesco material envolvido» (Molinari, C. 2010).
Em Portugal o teatro dito naturalista, teve sucesso em duas iniciativas profissionais na capital, no princípio do século XX, a do Teatro Livre e a do Teatro Moderno. «(…) Estas duas iniciativas, aplaudidas pela imprensa progressiva, atacadas pelos jornais conservadores, cuja «contiguidade ao movimento da propaganda republicana» Óscar Lopes acertadamente sublinhou e resultava não só da personalidade cívica dos seus mentores e aderentes como dos temas levados à cena (que punham em causa as desigualdades sociais, a moral e a justiça burguesas, o celibato dos padres), representaram um marco importante na evolução do nosso teatro, tanto pela revelação de novos autores, actores e encenadores, como pela afirmação polémica de uma atitude combativa frente ao marasmo da vida teatral portuguesa» (Rebello, L. F. 2000). Mas lograram também uma notável influência.
Afinal, é nos dramas didácticos que «Brecht dá os exemplos mais claros daquilo que entendia por teatro político: um instrumento de conhecimento dialéctico (…). Os dramas didácticos não são tão úteis aos espectadores quanto aos autores que, adoptando uma postura activa e consciente diante dum dado problema, conseguem apreender os seus termos efectivos e indicar as suas possíveis soluções que não são necessariamente as do autor (Molinari, C. 2010).
“Quiné”, um auto-didacta, ao ter a capacidade de trabalhar tanto o naturalismo (o de origem lusa, no dealbar do século, como o da influência do Stanislavsky da primeira fase), o neo-realismo ou o teatro político (inspiração de Piscator e Brecht), numa íntima relação com o diferente, qual celebração da heterogeneidade, é em sentido filosófico um pós-moderno precoce, e o resultado deste seu labor identifica a sua produção mais tardia no OLCA como eminentemente pós-moderna ou prefigurando já o pós-modernismo.

E as sociabilidades geradas pelo teatro de tal raiz no seio do associativismo, meio onde tinha um pendor catalisador e veiculador, estimulavam um saudável sentido transformador.
Mas pode ainda dizer-se que este «realismo de larga implicação social” (Cruz, D. I. 2001) ou a tradição de “drama de actualidade” ou “drama social”, caracterizado por uma estética realista naturalista, de temática social, aperfeiçoada ao longo do século XX, e em especial depois de Abril de 1974, é «um bom exemplo da evolução modernizante que este realismo de cariz social sofreu» (Carvalho, C. 2004).

Henrique Pinto
Novembro 2011
FOTOS: Joaquim Manuel de Oliveira “Quiné”; GTPL com Quiné ao centro; Cena de Bartolomeu dos Mártires;  «Quiné e Guy Stoffel; Janela do Mosteiro da Batalha; Bertolt Brecht; Stanislavsky; Cesare Molinari (encenação do autor)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ACORDA PORTUGAL!

Recebi o texto seguinte do amigo Álvaro Gomes, meu companheiro como Governador de Rotary International. Ao contrário das comunicações a respeito dos deputados que me entram nas caixas de correio (electrónico ou não), habitualmente dum radicalismo ferino mesmo se com fundo de justiça, esta parece-me perfeitamente plausível, adequadamente escrita, da mais elementar justiça sem entrar no conservadorismo imediatista contra os fautores da política. Mas de facto o Parlamento (mesmo que sede de jogos de poder inadmissíveis) tem de constituir um bom exemplo para os cidadãos em todas as situações. Tem de haver consciência que os seus membros não são de outra divisão. Pois vejamos:

«Em três dias, a maioria das pessoas neste país lerá esta mensagem. Esta é uma ideia que realmente deve ser considerada e revista por todos os cidadãos.·
Alteração da Constituição de Portugal para 2012 para poder atender o seguinte, que é da mais elementar justiça:
1. O deputado será pago apenas durante o seu mandato e não terá reforma proveniente exclusivamente do seu mandato.
2. O deputado vai contribuir para a Segurança Social de maneira igual aos restantes cidadãos.
Todos os deputados (Passado, Presente e Futuro) passarão para o actual sistema de Segurança Social
imediatamente. O deputado irá participar nos benefícios do regime da Segurança Social exactamente como todos os outros cidadãos. O fundo de pensões não pode ser usado para qualquer outra finalidade. Não haverá privilégios exclusivos.
3. O deputado deve pagar seu plano de reforma, como todos os portugueses e da mesma maneira.
4. O deputado deixará de votar o seu próprio aumento salarial.
5. O deputado vai deixar o seu seguro de saúde actual e vai participar no mesmo sistema de saúde como todos os outros cidadãos portugueses.
6. O deputado também deve estar sujeito às mesmas leis que o resto dos portugueses
7. Servir no Parlamento é uma honra, não uma carreira. Os deputados devem cumprir os seus mandatos (não mais de 2 mandatos), e então irem para casa e procurar outro emprego.
O tempo para esta alteração à Constituição é AGORA. Forcemos os nossos políticos a fazerem uma revisão constitucional.
Assim é como se pode corrigir este abuso insuportável da Assembleia da República».
E esta eh? Vale a pena tomarmos consciência desta desigualdade de tratamento em tudo desnecessária.
Henrique Pinto
Janeiro 2012
FOTOS: Ponte «Eiffel» em Montreal (Canadá); Reunião de Governadores Rotary em Los Angeles; velhos em Algarve

NEOLIBERALISMO POLÍTICO E CULTURAL

  
«Mas, entretanto, a Europa mudou. Houve duas grandes revoluções pacíficas na Europa desde então. A primeira foi a que levou ao colapso do comunismo e ao triunfo de uma ideologia oposta, que foi o neoliberalismo. E a outra é a que vivemos actualmente e que representa o colapso do neoliberalismo, como ideologia. (…) Hoje, o que acontece é que os dirigentes actuais da União Europeia não querem ver que o neoliberalismo, como ideologia, e o capitalismo de tipo financeiro e especulativo que dela resultou, falharam, como tinha falhado o comunismo. Temos de encontrar outro paradigma político, económico e social, como disse o Presidente Obama,
mesmo que não tenha ainda conseguido concretizá-lo. (…) Mas agora o que quero dizer é que a Europa não foi capaz de aceitar que era preciso entrar em ruptura como capitalismo financeiro - especulativo, em que vivemos nas últimas décadas. E isso prejudicou-a muito.
Mário Soares
em Portugal Tem Saída,
2011

A social-democracia, a que Tony Judt (2010) chama “ a prosa da política europeia e a que os americanos assumem por liberalismo, passa por um ocaso perturbador. Como se ferida
enquanto teoria coxeia sob nomenclaturas diferentes como prática de governos em ambos os
lados do Atlântico, sem alternativas credíveis de política económica.
As desigualdades cresceram. Já nem a esquerda nem a direita têm uma história plausível para contar acerca do Estado.
Qualquer que seja o rótulo usado liberalismo e social-democracia escoraram a política americana e europeia por 30 anos depois de 1945. Conseguiu-se um equilíbrio entre o mercado e o Estado. Sobrevoou-se uma trégua frutuosa entre negócios e trabalho que produziu na óptica do capitalismo um período dourado que a todos beneficiou. Sobreveio então a inflação, a revolta quanto ao pagamento de impostos, crise fiscal e um revivalismo triunfante das ideias do mercado livre.
Nos 30 anos imediatos um novo «encolhimento do Estado» fez norma, com a sua promessa de abrir horizontes e benefícios para todos. Agora, os governos enfraquecidos e endividados contam as migalhas de todos os lados, bancos e negócios incluídos. Ninguém está seguro no quê acreditar (Judt, J. 2010).

O neoliberalismo é um conceito muito invocado mas mal definido nas ciências sociais.
É um sistema ideológico nascido da luta e colaboração em três mundos: intelectual,
burocrático e político.
Nos anos 1990 os observadores políticos começam a dar-se conta da morte, para o bem ou para o mal, da política que conhecíamos. Nas palavras de Crouch, C. (1997), os partidos do 
mainstream da esquerda vieram para viver «num mundo político que não é da sua autoria» – um mundo cuja própria estrutura é antiética para os objectivos e princípios da social-democracia.
Uma crescente literatura sociológica traça uma viragem internacional para o mercado livre desde os anos 1970, colocando particular ênfase na produção e exportação de «Consenso de Washington» da América do Norte para a Central e do Sul. Focando-nos no ocidente, especialistas em políticas comparadas citam o declínio das identidades partidárias no eleitorado das democracias ricas, a ascensão de políticos profissionais que não aderem às “velhas” divisões ideológicas e o significado de governos partidários como um prenúncio de escolhas políticas macroeconómicas.

Neoliberalismo pode significar coisas muito diferentes. Para Campbell e Pederson (2001) neoliberalismo é: (a) um cenário heterogéneo de instituições consistindo de várias ideias, políticas sociais e económicas, e formas de organização política e actividade económica. (…) Idealmente inclui instituições formais, como um Estado-providência, política de taxação e programas de regulação de negócios minimalistas, mercados de trabalho flexíveis e relações capital – trabalho descentralizadas não sobrecarregadas por uniões sindicais fortes e negociações colectivas; e a ausência de barreiras à mobilidade internacional do capital. Inclui princípios normativos institucionalizados favorecendo soluções de mercado livre para os problemas económicos mais do que negociações ou planeamento indicativo, e uma dedicação ao controlo da inflação mesmo que à custa do pleno emprego. Inclui também princípios cognitivos, notavelmente uma crença tida por garantida na economia neoclássica (Campbell e Pederson, 2001).
Em suma, o neoliberalismo assenta num princípio fundamental simples: a superioridade da competição individualizada, baseada no mercado, sobre todos os modos de organização. Este princípio básico é o carimbo do pensamento neo-liberal, com raízes que estão, parcialmente, tanto na economia anglicana como nas escolas do liberalismo alemão (Mudge, S. L. 2008).

Muitos escritores concordam que o neoliberalismo trouxe transformações massiva através do mundo, alguns definem que esta teoria de política económica assegura que o bem estar humano é melhor servido pelas redes institucionais caracterizadas por fortes direitos de propriedade privada, mercado livre e livre transacção (Couldry, N. 2010).

Henry Giroux refere-se aos efeitos corrosivos da cultura corporativa na academia e de tentativas recentes de Faculdade e estudantes resistirem à prática de corporação na alta educação. Argumenta que o neoliberalismo é a ideologia mais perigosa do momento histórico presente. Mostra como o discurso cívico deu lugar à linguagem da comercialização, privatização e desregulação e que, com a linguagem e as imagens da cultura corporativa, a cidadania é retratada como um assunto completamente privado que produz o auto-interesse (Giroux, H. 2009).

Na teoria neoliberal «o pensamento crítico e a justiça social parecem desvanecer-se, pois actualmente todos são compradores ou clientes e todas as relações são avaliadas pelo resultado financeiro. Deste modo, o sempre crescente consumidor e sujeito empresário substitui o conceito de cidadão responsável, quando este último obedece ao “mantra” neoliberal “privatizar ou perecer”. Assim, a adversidade é vista como uma fraqueza e a autosuficiência constitui a maior virtude, o que é uma outra maneira de dizer que as pessoas devem enfrentar sozinhas os crescentes de ordem social, (…) os interesses privados triunfam sobre as necessidades sociais (Giroux, H. 2011).

A supremacia da cultura corporativa neoliberal (…) consolida o poder económico nas mãos de poucos e tenta agressivamente destruir o poder de sindicatos, dissociar o rendimento da produtividade, subordinar as necessidades da sociedade ao mercado e considerar os serviços e bens públicos como um luxo inquestionável (…). Prospera numa cultura de cinismo, insegurança e desespero (Giroux, H. 2011).

Arte e literatura oferecem um modo alternativo de pensar acerca do social e da política através da sua função imaginativa. A arte empresta um espaço para trabalhar através das contradições e negociação de matérias sociais.

O neoliberalismo é um termo raramente empregue em análises literárias. Talvez lhe falte o ar sexy de termos políticos mais populares, como globalização, diáspora, governação, transnacionalismo, entre outros. Ou talvez seja uma palavra em que a falta de especificidade e actualidade encerre os termos mais frequentemente usados. Contudo, o reino político está omnipresente em muitos filmes e romances, designadamente africanos, e as políticas e práticas neoliberais formatam as experiências de ficção e filmes (Hanggi, K. 2009).

Uma das persistentes ficções do neoliberalismo – como historicamente com o liberalismo clássico – tem sido a autonomia das esferas económica, política e cultural. (…) Conceptualiza precisamente a imbricação da dinâmica cultural, política e económica moldada por e constituída pela lógica do neoliberalismo. Construções retóricas da “família” e da “comunidade” são particularmente relevantes no discurso privatizado e ostensivamente despolitizado do neoliberalismo (Goldstein, A. 2007). O discurso e práticas do neoliberalismo, incluindo políticas para a educação e formação, debates públicos tendo em vista padrões e regimes mudados de financiamento, é vago. (…) Numa cultura liberal (como em qualquer outra), o individual está habitualmente implicado, mesmo desconhecedor, na criação duma subjectividade que dentro da racionalidade política é prevalente. (…) Por isso, avançam as críticas, a subjectividade neoliberal seria uma entidade instável dado o problema adicional de que o assunto está continuamente envolvido em (re)forma. (…) A instabilidade diminui a partir da exigência do próprio para (re)forma, (reforma) [e (re)forma até ao infinito], para encontrar os desafios
(Davies, B.; Bansel, P. 2007).

A aproximação neoliberal ao público das artes conduziu a fundamentos de racionalidade que constroem a arte como um objecto subordinado aos princípios da oferta e da procura, enquanto limitando, senão negando, o papel construtivo da arte como um discurso político na vida da democracia. Neste ponto chave a ideologia advoga um papel mínimo do Estado e um papel máximo para os mercados na organização económica da vida (Medvecky, C. 2010). É este viés filosófico contra o envolvimento do Estado que aparece
através do debate no senado norte-americano em 1989-90 sobre o financiamento do NEA,
Programa de Apoio Nacional às Artes. (…) Em resposta ao trabalho artístico de Andres Serrano
o senador Alfonse D’Amato disse-lhe: «Como se atreve a gastar o dinheiro dos impostos pagos
nesta porcaria?» (Bolton, R. 1997).
Henrique Pinto
Novembro 2011
FOTOS: Assunção Esteves; Pedro Passos Coelho; cena do filme Os Três Mosqueteiros; Feliciano Barreiras Duarte e Henrique Pinto