segunda-feira, 26 de outubro de 2015

EM MOVIMENTO, UMA VIDA

Ando muitíssimo distraído. Só não me preocupa por aí além dado ter-se a situação como normal nesta fase de evolução da minha convalescença.
Neste fim-de-semana li de um fôlego o magnífico livro Em Movimento, Uma Via, de Oliver Sacks, falecido em 24 de Agosto último. São da sua pena, entre muitos outros livros e textos, obras como O Homem Que Confundia a Mulher com Um Chapéu, Despertares (lembremo-nos do belíssimo filme com Robert de Niro e Robin Williams), Musicofilia ou O Olhar da Mente (todos publicados na Relógio d’Água).
Oliver Saks condecorado pela Rainha Elizabeth
Em finais do ano passado, aquando estive nos Estados Unidos em trabalho, aproveitei para uma vez mais visitar alguns dos bons e velhos amigos. Foi assim que estive com Oliver Sacks, que sabia enfermo. Tencionava convidá-lo novamente a palestrar em Portugal. Mas o ilustre neurocirurgião, investigador, matemático, músico, escritor e motoqueiro, declinou em absoluto tal possibilidade. Dizia-me que o seu cancro, um Melanoma da coroide, tinha metastizado, e que julgava durar até ao Natal de 2015. Desejava completar entretanto uma série de projetos que tinha em mente. Ao que parece, terá conseguido o seu desiderato.
Oliver Saks com Robin Williams durante a rodagem de Despertares
Em Movimento é uma autobiografia por onde perpassam todos os avanços significativos do estudo do cérebro e também da consciência desde o século XIX. A Obra tem um ritmo mais acelerado no seu último terço, onde Sacks se estuda a si mesmo, porventura intuindo a megera a rondá-lo. Vejamos um trecho disso mesmo.
«(…) Em Setembro de 2009, ao fim de três anos de tratamento, a retina do meu olho direito, fragilizada pela radiação, sofreu uma hemorragia, cegando-o por completo (…).» «Privado da visão binocular, eu tinha agora  muitos e incapacitantes (mas por vezes arrebatadores!) problemas com que me defrontar – e que investigar. Esta perda
da visão estéreo não representava apenas uma lamentável privação para mim, enquanto estereófilo apaixonado, mas revelava-se amiúde também perigosa. Sem a noção de profundidade, os degraus e os lancis dos passeios apareciam-me como meras linhas no chão, e os objetos distantes pareciam estar no mesmo plano que os mais próximos. Com a perda do campo visual no meu olho direito tive muitos acidentes, colidindo com objetos ou pessoas que pareciam surgir de súbito à minha frente vindos do nada. E eu não estava apenas cego fisicamente, mas também mentalmente do lado direito.» (…) «Essa negligência unilateral, como os neurologistas lhe chamam, ocorre normalmente na sequência dum AVC ou de um tumor na região visual ou parietal do cérebro. Para mim, enquanto neurologista, estes fenómenos eram particularmente fascinantes, pois forneciam um espantoso panorama dos modos como o cérebro funciona (ou disfuncional, ou deixa de funcionar) se o input sensorial é deficiente ou anormal.» (…)
É assim que o investigador, homem brilhante no terreno e na teoria, fazedor de milhares de Estudos de Caso clínicos, de doenças raras, concentra na análise das suas próprias emoções enquanto doente, a validação das teorias dos feixes de milhares de neurónios interligados para um único estímulo/resposta, organizados em “mapas” que interagem continuamente (teorias de Edelman, Nobel da Medicina e seu amigo).
É um livro com um universo de leitores muito para além dos médicos interessados pela ciência.
Henrique Pinto

25 de Outubro 2015
Halterofilismo do duro, paixão de quando rumou à America em 1960

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