segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O CASO DE DINO











O Dino era um rapaz com 28 ou 29 anos, que estava em plena crise existencial. Já tinha lido alguns livros de Filosofia, sobre o Existencialismo, sobretudo devido à palavra. Um dia, quando consultou um Psicólogo, fixara o que este dissera no diagnóstico: o Dino não tem problema nenhum grave, é apenas uma crise existencial, com a qual deve ter algum cuidado. Passado algum tempo, ao pesquisar na Internet, deparou-se com uma página sobre o Existencialismo Francês, e lembrou-se que tinha falado sobre esse assunto na Escola, mas já não recordava quase nada. Assistente Social, o Dino dedicava o seu pouco tempo livre a ler livros sobre o Existencialismo. No momento em que me consultou, estava a ler o Mito de Sísifo de Albert Camus. E o seu pensamento ficou mais confuso quando leu aquela frase, logo no início, em que o autor diz que o único problema filosófico sério é o suicídio.O Dino perguntava-me agora se algum dia seria capaz de se suicidar, ou seja, o Dino tinha consciência de que naquele momento não era capaz de o fazer, nem tinha interesse nisso, pois gostava muito de si, apesar da crise em que se encontrava. Perguntei-lhe se queria começar por falar da sua crise, para tentarmos compreender melhor ou se queria já abordar o tema do suicídio, ou outro qualquer. O Dino escolheu a sua crise existencial. Perguntei-lhe então o que entendia por crise, ao que me respondeu que era uma fase de muito pessimismo, de fuga ao mundo, de sensação de solidão e de carência afectiva. Perguntei-lhe se se sentia nervoso, com insónias, suores frios… Não, nada disso. Mas havia uma «coisa» que ele não sabia gerir e que talvez justificasse esse estado. Qual? – perguntei. A morte de toda a minha família – afirmou de imediato e com um olhar mais triste. Foi há três anos, num acidente. Pai, mãe, dois irmãos e avós da parte da minha mãe. Eu não fui de férias com eles, porque o trabalho só me dava férias no mês a seguir. Fiquei sozinho em casa. Quando soube da notícia, foi um choque, como deve imaginar – contou o Dino. Depois do acompanhamento feito pelo seu médico de família em conjunto com uma Psicóloga, a sua recuperação foi mais rápida e fácil. O Dino sentia-se mais forte agora, e por isso, o que o levava a uma consulta de Filosofia eram outras questões mais pessoais, de curiosidade, e como não tinha nenhum curso de Filosofia, nem estava matriculado numa Universidade, pensou em experimentar o Aconselhamento Filosófico, para trocar algumas ideias sobre a teoria de Albert Camus e a questão do sentido da vida. A questão de há pouco voltava a surgir no diálogo: correria o perigo, devido à catástrofe de que fui vítima, de um dia ter pensamentos suicidas? E porque é que o pensamento de Albert Camus era tão pessimista? Não haveria outro Filósofo que pudéssemos utilizar para contrapor, e que fosse mais optimista? Dino abordou-me com tantas curiosidades que lhe perguntei se poderia começar pela última. Foi então que lhe apresentei um livrinho que tinha comprado há poucos dias na FNAC do Algarve Shopping: Elogio da Sinceridade, de Montesquieu. Perguntei-lhe o que achava das «verdades dolorosas» da vida. O diálogo começou pela análise de um episódio de uma telenovela da TVI, em que o marido tinha sido sincero com a sua esposa, dizendo que a tinha traído na noite anterior. Dino disse-me que tinha discutido esta cena com a sua namorada, a qual não reconhecia qualquer valor à sinceridade do homem que traiu, porque para ela a traição foi um contravalor mais forte e decisivo para caracterizar os sentimentos desse homem. Por outro lado, o Dino reconhecia a virtude do homem em ter tido a coragem de dizer a verdade, e seguidamente ter ditoque amava a sua esposa. Dino queria agora saber a minha posição. De facto, como já deve ter reparado, os clientes das consultas pretendem sempre saber o que nós pensamos, tal como os alunos nas Escolas querem sempre saber a nossa opinião sobre as matérias. Trata-se de uma questão que deve ser gerida com sensibilidade e medida. Por um lado, há Conselheiros, como é o caso de Tim Lebon, que consideram que não se deve falar da vida pessoal, por outro lado, como por exemplo Shlomit Schuster, diz-se que temos de criar um certo clima de amizade. A posição de Dino era muito próxima da posição de Montesquieu. Explorámos a questão e o Dino concluiu que o importante era ser transparente para si próprio, de modo a viver tranquilo com a sua consciência.Ao falar da amizade, Montesquieu dizia exactamente isso, e que só o homem sincero era digno da autêntica amizade e felicidade. Nesse momento, Dino referiu que tinha um amigo desde os 6 anos de idade e que era o seu melhor amigo. O problema é que ele estava longe, muito longe, e raramente se viam. Quando se viam, contavam quase tudo um ao outro, e as partilhas eram de tal modo intensas que a vida ganhava outra cor nesses momentos. O difícil eram os momentos de despedida. Para combater a distância, costumavam trocar imensos e-mails, SMS’s e, no início, até cartas enviavam um ao outro. Nas férias costumam encontrar-se e ir para qualquer lado a quatro, ou seja, com as respectivas namoradas. Perguntei ao Dino se ele via essa amizade como um projecto. Era mais uma questão de sentimento – respondeu-me. Mas depois de pensar melhor, considerou que sim, pois era necessário programar tudo para que fosse possível viver momentos de amizade. Mas era um projecto muito especial, que ele guardava com muito carinho. Dino era um rapaz reservado, falava pouco, envergonhava-se com facilidade. E como não tinha grandes relações com outras pessoas, esta amizade ganhava uma importância muito maior. Achei que era o momento oportuno para aplicar o meu método «Project@». Depois de ter identificado este projecto na vida do cliente, procurei algo mais. Dino falou-me de um sonho: ser político e contribuir um pouco para mudar as injustiças deste país. Perguntei-lhe se isso não era possível. Difícil – respondeu. A sua vida profissional não permitia. Horários sempre incertos, muita pressão, deslocações constantes, tudo dificultava o acesso ao ensino superior. Depois de analisarmos em conjunto a estrutura de um projecto, o Dino disse-me de imediato que tinha mais projectos, e eram eles que davam sentido e alegria à vida. Aí perguntei: então porque é que está em crise existencial? Dino fez silêncio durante cinco segundos e disse: talvez porque nunca tenha valorizado os meus projectos de modo tão consciente como estou a fazer agora. Se tudo parecia mais claro agora, o passo seguinte não trazia facilidades. Relacionar o projecto com a vida do cliente (valores e sentido) levou-nos a considerar um outro problema: a sua namorada, apesar da boa relação que tinham, não o motivava muito, porque não queria que ele saísse da cidade e também porque o tempo que tinham para namorar era já muito pouco. Dino sentia-se sozinho no seu projecto. Passadas duas semanas, Dino regressa para outra consulta e podermos continuar a nossa reflexão crítica. Dino começa por sorrir e dizer que esteve a falar com o seu melhor amigo, e que lhe contou tudo o que tínhamos falado na consulta anterior. O amigo estava do lado dele e achava que ele deveria investir na sua carreira. Dino estava agora mais que preparado e entusiasmado para realizar o próximo passo: agrupar projectos e definir aplicações. Sem me questionar, nem pedir opinião, decidiu que ia passar um fim-de-semana com o seu amigo. Disse-me efusivamente que iria ser perfeito, porque enquanto estava com o seu melhor amigo, com quem partilhava os seus segredos e angústias, iria definir estratégias e começar a preparar a sua candidatura de acesso ao ensino superior, ouvindo e trocando ideias com o Baltasar, seu amigo de infância. Avançamos sem receio para o nível cinco – reforçar a «filosofia de vida» do cliente. Dino estava no caminho certo, sentia-se bem e racionalmente tinha decidido o melhor para si. Quando lhe perguntei se se considerava uma pessoa em crise, disse-me que isso era já coisa do passado, apesar de ainda existirem momentos de tristeza, mas que agora tinha um sentido, um caminho, que o motivava sempre. As crises passaram a ser simples momentos passageiros na sua vida. Para terminar, ao verificar a sua realidade e importância, deparei-me com uma dificuldade: alguns conflitos no local de trabalho. O Dino era agora alvo da inveja de alguns colegas. Perguntei-lhe se isso o incomodava muito. Disse-me que sim, porque aquele local de trabalho tinha um significado muito especial para ele. Perguntei-lhe se havia algum modo de resolver o problema. Dino arrumou-me logo: a função pública é um mundo à parte, não existem mecanismos para resolver problemas. Perguntei-lhe se a sua instituição não tinha Comissão de Ética. Não – respondeu. E Código de Ética? Acho que tem lá umas folhas com uns princípios escritos, mas que ninguém lê nem sabe muito bem o que é, para que serve e como se aplica – disse. Ficou marcada uma sessão para explorarmos esses conflitos éticos no local de trabalho e eventuais estratégias de resolução.
FONTE: Jorge Dias, "Filosofia Aplicada à Vida. Pensar Bem, Viver Melhor. Lisboa. Ésquilo e APAEF. 2006.

Jorge Humberto Dias
Setembro 09

Em http://gabinete-project.blogspopt.com/

FOTOS: Jorge Humberto Dias; peito de mulher, «a sua namorada, apesar da boa relação que tinham, não o motivava muito, porque não queria que ele saísse da cidade e também porque o tempo que tinham para namorar era já muito pouco. Dino sentia-se sozinho no seu projecto»

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